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outubro 26, 2003

Maria da Conceição

Maria da Conceição: por que não participa ela nas manifestações contra as propinas?


Maria da Conceição. Vinte anos. No liceu de Beja fora sempre a melhor aluna das turmas em que estivera integrada.
A angústia começara no 11º ano em que o desejo de se licenciar em Filosofia colidira com as limitações económicas dos pais.
Mas, a excelente média de frequência do ensino secundário e as classificações obtidas nos exames do12º ano que permitiram a aquisição de uma Bolsa, a presença de um tio no Fogueteiro onde tem um café e a quem a Maria da Conceição ajuda aos fins de semana como contrapartida à alimentação e ao alojamento que o irmão do pai lhe oferece, a parcimónia nos hábitos consumistas ( não tem carro, nem carta, nem busca roupas de marca), possibilitaram-lhe a tão ambicionada entrada na Faculdade de Letras de Lisboa, cursando Filosofia com as propinas sempre em dia.
Sabendo, então, das dificuldades dos seus pais, por que não alinha Maria da Conceição na contestação ao aumento das propinas? Porque trabalha e estuda e não tem tempo para essas coisas? Sim. Porque desconfia das genuínas motivações dos seus colegas dirigentes das associações estudantis Universitárias? Também e Sobretudo. É que a Filosofia ensinou a Maria da Conceição a pensar e a tudo questionar e a Maria da Conceição interroga-se: Por que se opõem tanto os seus representativos colegas ao aumento das propinas? Porque os seus pais têm dificuldades económicas e fazem grandes sacrificios para as pagar? Mas como, se diariamente se deslocam à universidade de carro, se não dispensam uma boa noitada nem o último grito da moda?
Será , então, a solidariedade desinteressada para com os colegas mais necessitados lesados no seu direito democrático à educação e à cultura que os levará a levantar a voz frente às câmaras de televisão? Defesa apaixonada dos colegas menos favorecidos ou ambição de protagonismo?
Maria da Conceição é essencialmente céptica e não acredita muito no jovem altruísmo daqueles que se dizem seus representantes. Maria da Conceição pensa mesmo que, muito provavelmente, daqui por uns anos, alguns dos seus mais aguerridos colegas dirigentes da massa estudantil, agora enquanto novos valores da política portuguesa, estarão sentados no parlamento, representando não o povo mas um qualquer partido político junto do povo e defenderão ou contestarão as propinas em função dele: defendê-las-ão se o seu partido estiver no governo e contestá-las-ão se estiver na oposição e sabe, ainda, que nenhuma palavra será dita contra a persistência dos privilégios da era da massificação: as situações excepcionais, o usufruto de critérios desconhecidos e à margem das leis que aos «comuns» se aplicam.

E é por isso que a Maria da Conceição nunca foi vista numa manifestação estudantil contra o aumento das propinas.

Publicado por Maria Adelaide às outubro 26, 2003 11:51 PM