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setembro 01, 2004
Em Tua Memória.
Volto a este espaço, depois de tão prolongada ausência, para dar testemunho da minha experiência num hospital S.A. do nosso país.
O contacto do médico com o paciente internado: faz-se preferencialmente de forma administrativa; ou seja, o médico contacta com o processo do doente que se avoluma com os relatórios diários do pessoal da enfermagem. O contacto humano do médico com o seu paciente é francamente esporádico, de que resulta, no paciente, o desânimo, a descrença e a sensação de abandono.
É bem verdade que cada médico tem a seu cargo, nos nossos hospitais, um elevado número de doentes, mas iria tão a desfavor da tão almejada eficácia que cada médico dispensasse diariamente dois minutos de proximidade humana a cada um dos seus doentes?
A ditadura da eficaz gestão das camas: é de tal ordem que um doente com um cancro em fase terminal pode ser colocado numa ambulância sem se esperar pelo seu acompanhante, pode ser 'despejado' como se de uma peça de mobiliário se tratasse nas horas de maior calor , correndo o risco de desidratação porque há um número infindável de doentes que 'cobiçam' a sua cama. Isto aconteceu de facto, acreditem, no hospital distrital de Beja.
É bem verdade que aquela cama entretanto vaga pode salvar uma vida quando já nada há a fazer pela anterior ocupante. Mas, então, que se proceda com menos frieza e com mais humanidade porque estamos a falar de pessoas onde a fragilidade e precaridade da condição humana atingiram o seu ponto máximo.
Expulsos dos hospitais S.A, os doentes terminais ingressam, então, nos hospitias de rectaguarda. Rectaguarda, via sem saída, fim da linha, antecâmara da morte. Impotentes, os familiares, porque trabalham e é necessário o soro e a sonda e o oxigénio e a morfina, deixam-nos, então, morrer desenraizados sob um tecto estranho.
Terá mesmo que ser assim?
Pessoalmente, em vez dos hospitais de rectaguarda,preferia ver alargadas as instalações dos verdadeiros hospitais, aumentado o número de camas e que neles fosse prestada uma assistência condigna; a todos os doentes, curáveis e incuráveis.
Ficarão os hospitais de rectaguarda, de facto, mais baratos ao estado português? E não existirão por trás deles, de facto, interesses menos confessáveis?
Publicado por Maria Adelaide às setembro 1, 2004 08:36 PM
Comentários
Cara amiga:
Parabéns pelo seu texto, pelo relato, e pelas ideias que exprime.
No essencial, tem toda a razão no que diz.
Existe de facto uma desumanização geral, e uma contínua tendência ainda para mais desumanização.
E aqueles que têm lutado ética e deontologicamente contra essa desumanização têm praticamente sido perseguidos pelo sistema instalado.
Mas o sistema tem um rosto. É o rosto de quem governa o sistema. Infelizmente para todos, esse rosto continua o mesmo.
Mas a injustiça, a falta de amor pelo ser humano, e mais a falta de amor pelo ser humano que sofre por doença, estas injustiças não vencerão.
Vivemos numa desordem, de que os culpados são quem é responsável ou responsáveis por esta desordem humana moral e material: os governantes da desordem.
Mas a Ordem há-de ser reposta. É uma questão de Honra.
Desde a antiguidade que os doentes sempre foram muito bem tratados pelos médicos. Porque os médicos trabalhavam pela honra e eram pagos pela honra. E quem dirigia qualquer acto de saúde ou qualquer instituição de saúde eram sempre médicos. E também faziam isto pela honra.
Infelizmente, hoje, são os contabilistas que dirigem as unidades/instituições de saúde; e que não percebendo nada de Medicina nem da Honra Médica, mandam ou querem mandar nos médicos e até no próprio acto médico. Esta é a desonra e a desordem que afecta principal e directamente os doentes.
Os médicos não tolerarão isto por muito tempo, pela honra, e pela honra antiga.
A bem dos doentes; a bem da dignidade daqueles que sofrem.
Um abraço.
Publicado por: ecce pessoa em setembro 2, 2004 04:22 AM
É sempre muito difícil colocarmo-nos na pele de outrém quando vive um problema de saúde de um seu próximo.
Ainda assim, sem querer referir-me à gestão hospitalar que este ministro implantou (que sou manifestamente contra e os resultados falam por si), sempre digo que cada vez mais a velhice e para mais a de precária saúde são encaradas neste mundo ocidental que vivemos como um fardo. Quando os médicos diagnosticam de tterminal e que a única coisa a fazer é garantir uma qualidade de vida aceitável está o problema lançado - passam a ser excedentários que ninguém parece querer saber deles.
É por esta evidência que considero que deveria ser público e gratuito a instalação, tratamento e acompanhamento destas pessoas, já que até ao seu fim são tanto como as demais, em condição muito mais fragilizada.
Um abraço
Publicado por: carlos a.a. em setembro 6, 2004 01:01 PM