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outubro 30, 2003

As Cartas

Encontram-na morta naquela manhã dos inícios de Junho. A vizinhança estranhara que, contrariamente ao que era seu hábito, ela não tivesse afastado o reposteiro da janela de onde espreitava o largo, o que fazia todas as manhãs, quer chovesse, ventasse ou fizesse sol. Por isso, e depois de insistentemente terem batido à porta sem obterem resposta, a vizinhança decidira arrombá-la.
Encontraram-na deitada na cama mas vestida de preto e calçada. Na almofada, um maço de cartas atadas com uma fita lilás que exalava um cheiro a alfazema.
O corpo ainda morno da defunta impediu que a curiosidade excedesse os escrúpulos da vizinhança em desatar o laço e desvendar o conteúdo das cartas. Daí que, após uma acesa discussão acerca da forma pela qual aquelas se conservariam até serem entregues aos familiares da morta, se decidiu que deveriam ficar, por direito, à guarda da tia Vicência. Fora ela que, durante anos, fizera os mandados à «menina» Augusta que, nunca pondo um pé fora da sua porta, precisava que alguém lhe trouxesse o sabão, o açúcar, o café, o pão e mais alguns víveres necessários a quem vivia só e frugalmente.
Não sabendo ler nem escrever, em nenhumas outras mãos as cartas, e os segredos nelas contidos, se segredos existiam, melhor poderiam ter ficado.
Tinha a tia Vicência, porém, uma neta a quem a presença das cartas em casa da avó constituíam uma permanente e apetitosa tentação, nelas adivinhando amores contrariados e proibidos.
Avisados os familiares de Almada, organizaram estes o funeral ao qual compareceram sem choros nem fingimentos. Enterrado o corpo, visitaram a casa, avaliaram os objectos susceptíveis de integrarem como elementos decorativos as suas próprias casas, fecharam a porta e levaram a chave.
Quanto às cartas, não manifestaram qualquer interesse, considerando que era nas mãos da tia Vicência que deveriam permanecer que mais não fosse pelos trabalhos que havia tido com a tia Augusta.
Agora na posse da tia Vicência, a sua neta, como legítima herdeira, arrogou-se o direito de finalmente desvendar os segredos amorosos que as cartas encerravam e que a sua imaginação romântica e algo lasciva adivinhava repletas de encontros secretos, beijos apaixonados e descrições de alcova.
Sem o arrebatamento e a paixão que nelas esperara encontrar, as cartas revelaram-se à Sandra, ainda assim, como cartas de amor; melhor dizendo, cartas de pedido de casamento que, insistentemente, ao longo de anos, um tal José Emídio escrevera à menina Augusta.
Numa aldeia do Alentejo onde nunca nada se passa na perspectiva de uma adolescente de 15 anos, aquelas cartas de amor associadas à morte da sua destinatária davam à terra uma nota romântica digna de se tornar notícia.
Num envelope dirigido a um programa televisivo de informação regional, a Sandra deu conta da ocorrência. Foi com ansiedade que dia após dia se sentou frente ao televisor e semanas depois, finalmente (que emoção!) falava-se da sua terra e por inclusão dela também, ainda que o seu nome não tivesse sido mencionado; mas era a sua terra e ela vivia lá. Numa notícia sem reportagem, muito brevemente, referia-se a morte de uma septuagenária alentejana que vivera só na Aldeia Nova, tendo como companhia as recordações de um amor antigo que encerrara num maço de cartas unidas por uma fita lilás. «Até quando viverão os nossos velhos na solidão e no esquecimento?» era o comentário final da apresentadora. A notícia não passara, porém, despercebida a um escritor conceituado da corte literária nacional mas algo improdutivo de há alguns anos a esta parte: «Para quando um novo romance?»; a pergunta fatídica de que era alvo nos meios recreativo-culturais que frequentava.
De imediato, o escritor Duarte Sobral contactou a estação televisiva, onde obteve o paradeiro da autora da notícia.
Pasta e escova de dentes, dois pares de peúgos, cuecas, duas t-shirts, bloco de notas, uma molin, o telemóvel e respectivo recarregador foram metidos à pressa num saco de viagem do escritor Duarte Sobral que já no elevador do prédio palpava os bolsos, certificando-se da presença do tabaco e do isqueiro.
A ponte Vasco da Gama permitiu-lhe atingir a Aldeia Branca em hora e meia. Chegado, não lhe foi difícil descobrir a Sandra que oportunamente (para ele e para mim que o estou a contar) estava em casa. Mais uma vez de imediato, o espírito observador e treinado de Duarte Sobral constatou que o carimbo nas cartas era o da estação de correios da Aldeia Branca.
Aquele facto, algo prometedor mas que ninguém interrogado na aldeia era capaz de explicar, obrigou Duarte Sobral a contactar os familiares de Almada, os únicos parentes da menina Augusta que fossem do conhecimento dos seus conterrâneos.
De novo, no saco de viagem, a pasta e a escova de dentes, o bloco de notas, a molin, o telemóvel e o respectivo recarregador. Das cuecas e t-shirts apenas uma e dos pares de peúgos apenas um que o restante foi amarfanhado num saco de plástico do supermercado da aldeia onde comprara a habitual garrafa de Whisky e um maço de cigarros; tudo jogado no fundo do saco menos a garrafa que já bebera e os cigarros que frequentemente acendia para acalmar o vício.
E ei-lo em Almada na presença dos familiares da defunta; na verdade, do sobrinho mais velho: Quem era e ao que vinha? Duarte Sobral, escritor interessado nas cartas da falecida tia Augusta. Se sabia dos insistentes pedidos de casamento de José Emídio à tia Augusta? Insistentes? Impossível! A tia Augusta fora pedida em casamento apenas uma vez quando tinha 35 anos. Conservadora como a haviam educado, considerara que a sua condição de menina prendada, temente a Deus e virgem obrigava a que não aceitasse de imediato um tal pedido, mais a mais vindo de um viúvo ainda que sem filhos. Porém, o José Emídio, homem de 45 anos com um sentido prático da vida e sem tempo a perder, não voltara a reiterá-lo. Na verdade, emigrara para Lisboa pouco tempo depois, não mais regressando à aldeia. Se casara? Não sabia.
E depois, agradecimentos, despedidas e esclarecido o mistério: ao longo de anos, a menina Augusta escrevera a si mesma cartas de amor devidamente honradas por pedidos de casamento feitos pelo único homem que alguma vez na sua vida por ela se interessara; cartas que na inocência do seu analfabetismo, a avó da Sandra levara à estação de correios da terra. Sentindo-se morrer quisera levar consigo o maço onde depositara o seu sonho; não contara, porém, com a curiosidade dos vivos.
Já em casa, whisky no copo, cigarro aceso; Duarte Sobral assentou no seu bloco de notas duas palavras apenas: solidão e arrependimento. E iniciou o romance.

Publicado por Maria Adelaide às 05:17 PM | Comentários (1)

outubro 26, 2003

Maria da Conceição

Maria da Conceição: por que não participa ela nas manifestações contra as propinas?


Maria da Conceição. Vinte anos. No liceu de Beja fora sempre a melhor aluna das turmas em que estivera integrada.
A angústia começara no 11º ano em que o desejo de se licenciar em Filosofia colidira com as limitações económicas dos pais.
Mas, a excelente média de frequência do ensino secundário e as classificações obtidas nos exames do12º ano que permitiram a aquisição de uma Bolsa, a presença de um tio no Fogueteiro onde tem um café e a quem a Maria da Conceição ajuda aos fins de semana como contrapartida à alimentação e ao alojamento que o irmão do pai lhe oferece, a parcimónia nos hábitos consumistas ( não tem carro, nem carta, nem busca roupas de marca), possibilitaram-lhe a tão ambicionada entrada na Faculdade de Letras de Lisboa, cursando Filosofia com as propinas sempre em dia.
Sabendo, então, das dificuldades dos seus pais, por que não alinha Maria da Conceição na contestação ao aumento das propinas? Porque trabalha e estuda e não tem tempo para essas coisas? Sim. Porque desconfia das genuínas motivações dos seus colegas dirigentes das associações estudantis Universitárias? Também e Sobretudo. É que a Filosofia ensinou a Maria da Conceição a pensar e a tudo questionar e a Maria da Conceição interroga-se: Por que se opõem tanto os seus representativos colegas ao aumento das propinas? Porque os seus pais têm dificuldades económicas e fazem grandes sacrificios para as pagar? Mas como, se diariamente se deslocam à universidade de carro, se não dispensam uma boa noitada nem o último grito da moda?
Será , então, a solidariedade desinteressada para com os colegas mais necessitados lesados no seu direito democrático à educação e à cultura que os levará a levantar a voz frente às câmaras de televisão? Defesa apaixonada dos colegas menos favorecidos ou ambição de protagonismo?
Maria da Conceição é essencialmente céptica e não acredita muito no jovem altruísmo daqueles que se dizem seus representantes. Maria da Conceição pensa mesmo que, muito provavelmente, daqui por uns anos, alguns dos seus mais aguerridos colegas dirigentes da massa estudantil, agora enquanto novos valores da política portuguesa, estarão sentados no parlamento, representando não o povo mas um qualquer partido político junto do povo e defenderão ou contestarão as propinas em função dele: defendê-las-ão se o seu partido estiver no governo e contestá-las-ão se estiver na oposição e sabe, ainda, que nenhuma palavra será dita contra a persistência dos privilégios da era da massificação: as situações excepcionais, o usufruto de critérios desconhecidos e à margem das leis que aos «comuns» se aplicam.

E é por isso que a Maria da Conceição nunca foi vista numa manifestação estudantil contra o aumento das propinas.

Publicado por Maria Adelaide às 11:51 PM