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novembro 27, 2003

Interrogações de uma senhora

Interrogações de uma senhora aos tecnocratas da União Europeia:
- Os defensores da referência ao cristianismo na Constituição Europeia alegam a sua importância no delinear da matriz da nossa civilização.
Mas antes do cristianismo não existiu o contributo das civilizações clássicas?
A matriz da civilização europeia é apenas cristã e não judaico-cristã ?
E, por mais que se queira negá-lo, não teremos que contar com o legado árabe, nomeadamente no nosso país? O património árabe ficou-nos apenas nas palavras começadas por «al», nas chaminés e no branco das casas alentejanas, ou corre também no nosso sangue e enforma a nossa maneira de ser?
A modernidade da Europa não está, por outro lado, no laicismo, na separação entre estado e igreja , entre política e religião?
Porquê então essa obstinação pelo cristianismo? Para afastar alguém, como nos hotéis de luxo onde o direito de admissão é reservado? Quem é que se pretende excluir? Os Marroquinos? Os Turcos?
Mas, não seria a bem da paz mundial acarinhar os moderados para isolar os radicais do islamismo?
Não sei, pergunto eu.

-Oh, minha senhora!!

Publicado por Maria Adelaide às 07:41 PM

novembro 19, 2003

A Demanda

Quase todos os dias, a Júlia se sentava, pela manhã, num banco do jardim.
Observava meticulosamente um pau, uma pedra, uma folha…perscrutava o vácuo e a linha do horizonte atrás dele e fazia passar fios invisíveis por entre os dedos.
Às vezes, levantava-se bruscamente e encetava uma rota compulsiva pela vila. Era quase sempre o filho mais velho que a encontrava e lhe interrompia aquelas deambulações:
-Mãe!...
Estendia a mão e entrava tranquilamente no carro.
Experimentava a textura dos estofos, a frieza dos vidros e pasmava-se da corrida vertiginosa das casas e das árvores.
Eram amigáveis os rostos à sua volta.
Se as múltiplas vozes que soavam na sua cabeça sossegassem e as palavras se libertassem, dir-lhes-ia que andava em demanda.
Em demanda de um sentido para isto.
De um sentido para a vida.

Publicado por Maria Adelaide às 05:41 PM | Comentários (1)

novembro 13, 2003

O Monte

Uma, duas voltas na fechadura como sempre fazia quando deixava o monte. Mas desta vez não iria regressar. Aquele gesto que tantas vezes repetira, fazia-o agora pela última vez.
Gostara daquela casa. Do cheiro do louro e dos orégãos, dos estalidos da madeira no silêncio da casa. Sempre gostara do silêncio e do som das coisas no silêncio. Da solidão do monte. Na aldeia, obrigavam-na aos deveres de família, «venham cá jantar amanhã», «deviam vir cá mais vezes», «quando é que voltam?». Não. Não gostava da aldeia. Do monte, sim. No monte sentia-se senhora de si…
- Entre avó…deixe estar…eu fecho a porta.
Também nunca fora de grandes amizades. Nunca acreditara muito nas pessoas. Sempre uma pontinha de inveja. Entre amigos e até entre irmãos. Sim, até entre irmãos, um inveja sem malquerença…um não aceitar estar menos bem que o outro.
A linha do caminho de ferro…já mal se notava, engolida pela erva. Ainda se lembrava da alegria que sentia quando o comboio passava, «Vem aí o comboio rápido! Bora ver!». O Zé Júlio da tia Arminda, que era fanhoso, corria a gritar, «bem aí o camboio nápido». E ela no meio da moçada do monte. E o comboio lá em baixo. Pouca terra! Pouca terra!
Mas fora o monte que a não deixara ir à escola, «Pai, eu queria ir com o mano à escola.», «Não. Onde já se viu? Uma menina escarranchada num burro, de monte em monte!». No monte das Moiras não havia escola; por isso o António ia à escola do monte da Rama , montado na burra. O animal já conhecia o caminho. Ia ele, o Zé Júlio e o Luís Carapinha. O pior foi mais tarde. Que tristeza, minha Nossa Senhora!. «Avó, lê-me esta história.» Mas como explicar a uma menina de cinco anos que não se andou na escola, que não se aprendeu a ler nem a escrever?»
- Veja lá se vai aí muito abafada, avó. Abre-se um pouco a janela.
- Não filha, deixa estar. Eu estou bem.
«Eu estou bem e tu?» Ai, os namoros de antigamente. O domingo de manhã era um desassossego…e quando o via chegar, o coração batia cada vez mais depressa, cada vez mais forte, tanto que em todo o corpo lhe parecia bater, no peito, na cabeça…
«Então estás boa?»
«Eu estou bem e tu?» O coração a bater e o sangue a subir-lhe à cara…como quando ele lhe pedira namoro; pedira não que nada lhe dissera. Naquele dia, era a vez dela ir à fonte buscar água para o rancho da ceifa e ele aparecera ao pé dela de chapéu na mão, enchera-lhe a quarta com água e quisera levá-la na mão. Ela dissera que lhe agradecia mas que não era preciso, pusera-a na cabeça como era hábito das moças e haviam regressado um ao lado do outro para junto do rancho. Ainda se lembrava do ar reinadio da Esperança com o riso nos olhos…
Fora um bom homem e um bom marido o seu João. Deus o levara antes dela, a ele e à sua filha. Minha querida Rosa! Os dois de cancro. Maldita doença! Ai, Deus Nosso Senhor não devia fazer coisas destas; levar assim uma filha antes da sua mãe.
-Vai tão calada avó. Está com pena de deixar a sua casa? Mas tinha que ser, avó, não podia continuar sozinha, com tantos assaltos que têm feito aos montes, basta ver a televisão…
- Está descansada filha. Eu vou aqui com os meus pensamentos. Olha, vai é devagar que há muito doido na estrada.


Tinha acabado de fazer seis anos quando atravessara aquela estrada num carro de mulas em direcção ao monte. Fora há setenta e dois anos, mas lembrava-se como se fora ontem. Atrás vinham os colchões, a roupa da cama, os tachos, as panelas e outros tarecos que na altura não eram muitos. À frente, no banco, vinha ela e o mano António, entre o pai e a mãe. Na barriga da mãe, salvo seja, um bebé que havia de nascer morto, deus tivesse a alma do anjinho em descanso. Em baixo, atado por uma cordinha e a passo das mulas, vinha o Castanho, um rafeiro que a vizinha Astúcia dera ao pai quando a cadela parira.
O pai vinha como feitor das terras do monte das Moiras que pertenciam aos Palmas, gente de grandes fortunas. Antes estivera no monte das Pegas e antes desse no monte Branco. O pai nunca juntara um tostão, mas orgulho era coisa que não lhe faltava. Nunca aceitara desconfianças nem ordens a que não achasse jeito. Por isso, quando apareciam, punha a trouxa, a mulher e os filhos no carro de mulas e ala de volta para a aldeia. Ficavam então na casa que a mãe herdara por morte dos pais. Ainda se lembrava das partilhas depois da morte dos avós. Os tios dividiram as courelas entre eles porque eram homens e a mãe ficara com a casa porque era mulher, mas só a casa porque o recheio foi sorteado. À mãe coubera em sorte as cadeiras e um arneiro… Os lençóis, fronhas e louças foram para as cunhadas. Mas os irmãos deram-lhe a máquina de costura porque a falecida havia de fazer gosto que a filha a herdasse…
E, então, se estavam na aldeia e se havia trabalho, todos trabalhavam à jorna; o pai, ela, a mãe e o mano António. Fora numa dessas ocasiões que conhecera o João. Quantos anos haviam passado? Cinquenta? Mais de cinquenta anos…durante quinze anos trabalhara ela e o marido em França, de 65 a 80. Quando voltara e soubera que o monte das Moiras estava à venda, vendera a casa da aldeia, já o António falecera que Deus o tivesse em paz, e com o dinheiro que juntara em França…voltava para o seu monte. Estava mudado. Uma bancada na cozinha, uma casa de banho, a rocha junto à porta da entrada arrancada, mas os orégãos e o louro que colocou na dispensa, as linguiças que colocou no chupão devolveram-lhe os cheiros da meninice e a máquina de costura trouxe-lhe de novo os antigos sons da casa. Voltou a fazer criação: galinhas, perus e gansos. O João comprou umas ovelhas e fizeram rouparia.
Turismo Rural, disseram-lhe na Câmara. Vendera-lhes o monte, que mais poderia fazer? O coração já não batia como antigamente, cada vez mais o serviço da casa lhe pesava. Tinha que dar razão à neta, não podia continuar sozinha. Dera-lhe o dinheiro da venda do monte, ela a dizer que não, que não, mas no fundo a fazer-lhe jeito…a vida não está fácil… com dois meninos… e depois, para a viagem que a espera, de que lhe serve o dinheiro?...
-Já chegámos avó. É aqui. O que é que acha? Vai ver que vai gostar. Há gente da sua idade, fazem até passeios. É um bom lar. Eu certifiquei-me disso. Se eu não trabalhasse, ficaria connosco…não fique triste. Olhe, venho vê-la todos os fins de semana. E nas férias, há-de passar uns dias com a gente…
-Não filha. Não faças disso uma obrigação. Vem quando puderes e te apetecer. Eu fico bem.

Publicado por Maria Adelaide às 09:05 PM | Comentários (2)

novembro 06, 2003

Viagem de Ida e Volta

Como é que fora capaz de fazer uma coisa daquelas? O dia começara como começavam todos os seus dias. O telemóvel tocara. Sete e meia. Afagara a cabeça do marido e dissera o que sempre dizia, «João, são horas…»
Levantara-se. Tomara duche. Fora ao quarto dos meninos que, como era hábito, ainda dormiam. Abrira a janela, dera-lhes um beijo e dissera o que sempre dizia no despertar da manhã, «Vá lá, meninos. Toca a levantar…»
Fizera-lhes o lanche e deixara-os na escola. Dera-lhes mais um beijo e recomendara-lhes, como era seu costume, «E portem-se bem…»
Mas, naquele dia não se dirigira à Conservatória onde começaria o dia de trabalho com a mesma pergunta retórica ao primeiro cliente da manhã, «Já está a ser atendido?» Em vez disso, foi à estação e comprou um bilhete. Para Lisboa.
Se ao menos tivesse um talento…se tivesse voz para cantar, ou tocasse um instrumento, ou pintasse… ou tivesse jeito para escrever…mas as palavras brotam soltas na cabeça …Serenidade…Tranquilidade…Felicidade…como fazer um texto com palavras ao acaso?…Ou se fosse bonita e despertasse grandes paixões…ou se fosse uma mulher interessante, vegetariana; por exemplo. São tão interessantes as mulheres vegetarianas. Mas não. Uma simples funcionária da Conservatória, casada, com dois filhos e uma vida cinzenta, monótona, sem romance, sem fantasia…
Olhou lá para fora. Já entrara na auto-estrada. O que é que eu estou a fazer aqui?
Sentiu falta de ar. Abriu a janela. Levantou-se do banco de sopetão. Cambaleou no corredor do autocarro. Embateu no banco da frente.
_ Senhor condutor, tem que parar! Eu preciso de descer!
_ Ó minha senhora, a senhora está na auto-estrada! Não posso parar, nem a senhora pode ficar aqui!
_Claro, claro…o senhor tem razão…
_Agora, só na próxima estação de serviço…
Sentia o estômago num novelo.
_ E ainda é muito longe?
_ Uns 45 km…
Consultou o relógio. Nove e meia. Na estação de serviço, chamaria um táxi. Tinha o número dos automóveis de aluguer no telemóvel. Ao meio-dia estaria em casa, ainda a tempo de ir buscar os meninos à escola.
E deu por ela a dizer:
_ O regresso…gosto dos regressos. O senhor não gosta de regressar à tranquilidade das paisagens conhecidas? De voltar para aqueles que ama?
«Doida». Leu no olhar do condutor.

Publicado por Maria Adelaide às 05:10 PM

novembro 05, 2003

O______E_S_P_A_Ç_O


_ Preciso de E S P A Ç O ! _ disse o Companheiro.
E ela deu-LHO T O D O.
Foi-se embora.

Publicado por Maria Adelaide às 06:14 PM | Comentários (2)