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dezembro 30, 2003
NATAL
Natal. Agora é o tempo de se ser bom e generoso. De abrir o coração aos outros. E a dona Arminda, porque é boa senhora, influenciada pelos programas televisivos que nesta quadra tanto se preocupam pelos mais desfavorecidos da nossa comunidade (os pobres, os doentes, os sem-abrigo, os presos…) lá foi inspeccionar o seu guarda-roupa e o do seu homem para um eventual acto de dar.
Num saco meteu, então, uma saia cinzenta já sem forro, três camisas do marido que já não lhe serviam desde que engordara há uns anos a esta parte (no punho da camisa quadrejada deu por falta de dois botões), uma mala de senhora com a tira descosida e uns sapatos seus com fivela que calçara no casamento da filha já lá iam quinze anos.
Mas no caminho que vai do quarto para a cozinha, já as dúvidas a assaltavam.
Não. Não estava certo dar aos outros coisas que já não queria para si…por outro lado, a saia podia perfeitamente usar-se sem forro…lá para onde a roupa ia, devia haver alguém que soubesse pregar dois botões numa camisa (ela mesma o poderia fazer), a tira da mala cosia-se e quem ia usar os sapatos não teria certamente preocupações com a moda…que arrogância Arminda…que arrogância!
E depois nunca ia à missa (tinha a sua fé mas vivia-a à sua maneira). Com que cara ia agora procurar o padre para lhe entregar a roupa? Nem sabia muito bem como iniciar a conversa…senhor padre tem aqui esta roupinha para…para quem? Para os pobres? Não! Os pobrezinhos? Os pobrezinhos, Arminda? Ai, que soberba Arminda, convencida que és boa pessoa. É até pecado…e depois as coisas velhas encerram as nossas recordações e não temos o direito de desfazer-nos delas.
O genro, que é de esquerda, sempre disse que não se devem tomar atitudes individuais de caridade. De caridade, não; de caridadezinha, é assim que ele diz. O auxílio aos mais necessitados é uma responsabilidade do Estado, diz ele.
Ora, Arminda, tanto argumento por ires ajudar quem precisa…
E, assim, à força de objecções, esmoreceu-lhe a boa vontade.
Voltou ao quarto e colocou os potenciais donativos nos lugares onde estavam, e de onde nunca deviam ter sido tirados, censurou-se ainda.
Mas o dia já não lhe aproveitou.
Publicado por Maria Adelaide às 05:10 PM
dezembro 18, 2003
A um amor para sempre ausente
A um amor para sempre ausente
Talvez mais tarde.
Talvez mais tarde prevaleça na memória
O conforto da tua mão
O teu cheiro no teu lado da cama
O arrastar da porta quando entravas:
«Já cá estou!...Tenho que arranjar isto.»
Que nunca arranjaste…
A tua alegria quando a Inês nasceu.
«É uma menina, Ana, uma menina!»
E essa sensação indefinível de plenitude
Que decorria da tua simples proximidade.
«Cancro.» Disse o médico.
«Não há nada a fazer.»
Não obstante os teus trinta e nove anos de idade.
Talvez mais tarde.
O tempo tudo sara, dizem.
Talvez mais tarde.
Agora não.
Agora, só a presença insuportável em mim
Da tua absoluta e irremediável ausência.
Publicado por Maria Adelaide às 09:01 PM
dezembro 12, 2003
O último dia de uma dona de casa
6.45 – Tiranicamente, o despertador anunciou-lhe que eram horas de se levantar.
Tomou duche. Preparou o almoço do marido que pegava no turno das oito e preparou a merenda da Rita que entrava na escola às nove.
7.50 – Acordou o marido e acordou a Rita.
7.55 – Fez a sua cama e a da Rita fez. Abriu as janelas para arejar os quartos. « Até logo».A porta bateu e o Jorge saiu. Ouviu o autocarro da mina que levou o marido.
8.15 – Fez papa de Nestum para a Rita comer. Abriu a janela da cozinha para o sol entrar. Bebeu um copo de leite. Arrumou a cozinha. Deixou peixe a descongelar.
8.50 – Vestiu o casaco e o casaco à Rita. A Rita protestou. Argumentou. Cedeu. Desabotoou o casaco da Rita. Saiu.
8.55 – Voltou atrás. Fechou as janelas. Olhou desesperada para o relógio. Ou bem que se apressava ou a Rita chegava mais uma vez atrasada.
9.10 – Comprou pão, alface, frango e requeijão. Arquejou na subida. Que vida!
9.40 – Escolheu roupa escura para fazer uma máquina. Nódoas! Esfregou, lavou, desistiu, voltou a esfregar, aprovou, meteu na máquina e pôs a lavar.
9.55 – Varreu e lavou o chão. Passou a ferro: cuecas, lençóis, toalhas de banho, toalhas de rosto. Tinha que apressar o almoço; a filha saía daí a nada.
11.05 – A cozer, pôs batatas, cenouras e peixe. Voltou ao ferro: pijamas e fronhas, toalhas de mesa. O relógio da sala bateu meio-dia, estava na hora da Rita sair. Apagou o fogão, desligou o ferro, vestiu o casaco. Saiu de casa em passo apressado.
12.20 – Pôs a mesa: toalha e copos, pratos e talheres, pão e água e faca de pão, azeite e vinagre. A Rita do peixe não gostou, barafustou. Limpou os pratos, levantou a mesa, varreu o chão da cozinha. Penteou a filha que à escola voltava. Saiu novamente.
14.15 – Voltou. Sentiu-se só. Ligou a televisão; programa leve para donas de casa; preferia uma viagem a outras paragens, desligou o aparelho. Lavou a louça. Preparou o frango para o jantar. A Rita gostava e o pai também. Desinfectou as casas de banho, fez uma máquina de roupa branca. O telefone tocou, foi atender. Era a Mariana. Há quanto tempo não se viam? Devia tê-la convidado. E o tempo? Nunca tinha tempo para nada. O que estava a fazer aos seus afectos?
16.30 – O Jorge chegou «Não fazes ideia como estou estoirado!» Viu o desejo no olhar dele. Olhou para o relógio. «Agora não.» Estava na hora da Rita ir buscar.
16.45 – Banho à Rita. Saia azul e blusa branca. «Não!». Condescendeu: saia azul e blusa vermelha. Deu o lanche à Rita: pão com manteiga, leite com chocolate. Correndo, a Rita foi para o quarto, tropeçou, caiu, chorou. Acarinhou-a, contou-lhe uma história. «Esta!», «O pássaro da Alma» de Michal Snunit:
No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que ela existe
E não só sabem que existe,
Como também sabem o que lá tem dentro
Dentro da alma,
Lá bem no centro,
Pousado numa pata
Está um pássaro.
E o nome do pássaro é pássaro da alma
E ele sente tudo o que nós sentimos
18.25 – Controlando o tempo, fritou frango, fez arroz branco, sopa de feijão verde e salada de alface. Mandou a Rita fazer o trabalho de casa. Tapou o Jorge que adormecera no sofá.
19.40 – Pôs a mesa. Corrigiu o trabalho da Rita. Acordou o marido.
20.00 – Serviu o jantar. Ouviu o Telejornal. Lavou a louça, a bancada e o chão da cozinha. Passou um resto de roupa a ferro: calças, camisas, fatos de treino. Sentou-se no sofá frente à televisão Pegou num livro, abandonou-o, cabeceou, estremeceu. Há quanto tempo não tinha tempo para ler um livro?
22.20 – Deitou a Rita. «Mãe, conta aquela história.» Leu-lhe mais um pouco do «Pássaro da alma»:
E como tudo o que sentimos tem uma gaveta,
O pássaro da alma tem imensas gavetas.
A gaveta da alegria e a gaveta da tristeza
A gaveta da inveja e a gaveta da esperança
A gaveta da desilusão e a gaveta do desespero
A gaveta da paciência e a gaveta do desassossego
E mais a gaveta do ódio, a gaveta da cólera e a gaveta do mimo
A gaveta da preguiça e a gaveta do vazio
E a gaveta dos segredos mais escondidos
Uma gaveta que quase nunca abrimos…
O pai veio dar um beijo à Rita. Aconchegou-lhe a roupa e afastou-lhe o cabelo da testa, lembrou-se das palavras de Almada Negreiros que um dia lera na escola, Mãe, passa a tua mão sobre a minha cabeça. Quando passas a tua mão sobre a minha cabeça, mãe, é tudo tão verdade…
22.35 – Abriu a sua cama. Lavou-se. Deitou-se. Carinhosamente, o marido puxou-a para si. «Espera!» O almoço do dia seguinte! Faria bacalhau com couve-flor. Precisaria de comprar cenouras pela manhã. Desceu à cozinha para demolhar o bacalhau.
23.10 – Depois desta hora nunca mais foi vista. Muito se especulou acerca do seu desaparecimento Na verdade, rodopiando no espaço, O Tempo, fragmentara-a, dissolvera-a e incorporara-a.
Publicado por Maria Adelaide às 04:18 PM | Comentários (1)
dezembro 04, 2003
O Desassossego
Aquele estado de inquietação durava já há algum tempo.
Fizera uma limpeza profunda à casa.
Modificara o corte de cabelo
Comprara roupas novas
Fizera aeróbica
Pensara até mudar de profissão, não fora a incerteza dos dias que viriam.
Pensara ficar mais tempo no café com os amigos. Reatar os afectos.
Mas os sons do café envolviam-na, a atenção desviava-se, o pensamento voava. Enfadava-se e sentia-se estranha por essa sua estranha esterilidade.
Passeios. Todas as paisagens lhe pareciam iguais
Alguém lhe falara no Reiki. Informara-se. Não se deixara convencer.
Imaginou uma vida plena de emoções. Mas as necessidades da rotina traziam-na de volta à realidade.
Tchiiiiiiiiiiiiiiiiiii! « Raios . A panela de pressão!»
Fora até à igreja, «Mãe, Deus existe?» mas não sentira o apelo da fé. Era o final do Outono e sentira apenas muito frio.
Agora tem um blogue na Net onde dá largas ao seu desassossego.
Publicado por Maria Adelaide às 11:59 PM | Comentários (1)