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janeiro 29, 2004

A MACIEIRA

Nos primeiros dias do desemprego, ficava por instantes imóvel atrás da porta da rua que se fechava depois do «até logo» matinal do marido que ia para o trabalho e do «até logo» dos filhos que iam para a escola. De seguida, refugiava-se na cama, apagava a luz do candeeiro, tapava a cabeça com os cobertores, fechava os olhos e apertava os dentes para não chorar. Depois, com um sentimento de culpa, levantava-se bruscamente e, num ritmo acelerado, tratava da lida da casa. Só depois se lavava e muitas vezes nem almoçava. E ao longo do dia uma sensação de inutilidade persistia.
Uma colega, a Luísa, entrara mesmo em depressão. Viúva. Com dois filhos. O mais velho abandonara os estudos e estava agora a trabalhar como ajudante de cozinha num hotel do Algarve. Mais velha do que ela, com quarenta e oito anos, começara a perder as ilusões de voltar a encontrar trabalho. Recorria aos pais já reformados para alguma ajuda financeira. Por quanto tempo mais teria coragem para o fazer?
Mas foi num daqueles dias que descobriu a presença reconfortante da macieira no quintal sobranceiro à vila. Há uns anos atrás, o pai viera um dia ajudar o marido a plantar umas leiras para os gastos da casa: uma leira de coentros, outra de salsa, cebolas, alhos e o enxerto da velha pereira que em cada ano que passava dava menos frutos e mais enfezados. Junto da macieira, uma velha pereira ressuscitada, na brevidade de uma nesga de sol de um dia de Inverno, permitira-se apreciar o casario branco que se destacava do azul-escuro prenhe de chuva. E quando o sol, finalmente, triunfara, deixara alongar o olhar para além do casario e descobrira uma palete de cores: primeiro, o verde e o castanho; o verde-claro da erva, o verde-escuro das árvores, o castanho da terra e, mais ao longe, o azul e o lilás tocando o céu.
Hoje reparou que um pequenino pomo começou a irromper na nudez de um galho da macieira. Não tarda muito está aí a Primavera e o ciclo de vida recomeça.
Melhores dias virão?
Não quer perder a esperança.

Publicado por Maria Adelaide às 05:05 PM | Comentários (1)

janeiro 22, 2004

Ser Feliz...

«Ser feliz é ter , aparentemente, tudo?»
Assim encerrava o comentário feito pelo Xupacabras ao Aniversário que, desde já, agradeço.
Mas, não. Não creio que se seja feliz por se ter tudo. Tudo é um absoluto inacessível ao homem. E a Felicidade em estado pleno não o deverá ser menos.
Penso que os momentos felizes de cada um são o que de mais próximo podemos ter da Felicidade.
Um provérbio Chinês diz que ser feliz é morrer o avô, o filho e o neto, sempre por esta ordem. Será isto suficiente, como definição de Felicidade, para um ocidental?
Ou decorrerá a Felicidade pessoal do prazer?
Do prazer de dar e receber afecto?
Do prazer da realização profissional?
Do prazer do reconhecimento público?
Do prazer da serenidade conquistada?
Do prazer da acção pelo Bem?
Do prazer do respeito por si próprio e pelos outros?
Alguma vez saberemos?

Agora que terminei o texto veio-me à ideia que, ontem, uma mãe perdeu um filho com vinte e três anos num acidente de trabalho. Para esta mãe, deixou de haver espaço para esta problemática da Felicidade. Ou talvez concordasse com o provérbio Chinês.

Publicado por Maria Adelaide às 06:56 PM | Comentários (1)

janeiro 16, 2004

O Aniversário

O Aniversário

Fffcht! Bum! Entrava-se em 2004 e a Paula completava 45 anos. Nas redondezas, os cães latiam e corriam desnorteados perante o ruído insólito dos foguetes.
Em tempo de recessão, e para animar os munícipes, a Câmara não olhara a despesas.
- Então, mulher, que cara é essa? Anima-te! Até a Câmara festeja os teus 45 anos- disse a Lena, amiga de longa data.
«Este ano, fazemos a passagem de ano em casa. Convidamos a Lena e o Zé, a Fátima, o André; eles estão separados mas continuam a ser nossos amigos»- dissera-lhe o marido-«Vamos fazer uma comemoração de arromba, não é impunemente que se fazem 45 anos…» Pois, não. E a prová-lo aí estavam os pés-de-galinha que se começavam a delinear ao canto dos olhos e os cabelos brancos que começavam a despontar junto às frontes.«Devia fazer umas madeixas, ficavam-lhe bem.»- procurara convencê-la a cabeleireira.
«Então, o que é que achas, Paula?»- insistira o marido. «Está bem.». Como sempre, acatara a sua sugestão. Na verdade, ter-lhe-ia apetecido mais ir a um restaurante mas em vez disso, passara o dia a cozinhar: camarão cozido, arroz de polvo, sonhos…
«É tão boa cozinheira a Paula». Tão boa rapariga. Tão boa esposa. Tão boa mãe. Tão compreensiva.
A verdade é que nunca foste capaz de dizer não; pois não Paula? Já em criança, filha única, o medo de que deixassem de gostar de ti levava-te a aceitar todas as brincadeiras; às vezes lá arriscavas, «e se contássemos histórias umas às outras?. Não. Brincamos à cabra-cega» E tu fazias de cabra-cega.
Fizera o casamento que ele quisera. Tinha tanto medo de o magoar, de o decepcionar, «Orgulho-me muito de ti, Paula.»
Nenhum deles era católico praticante mas casaram-se pela igreja. Era Verão. Agosto. Levara um vestido sem mangas, ramo de rosas amarelas, a sua cor preferida, flores no cabelo, sem véu, «Que linda noiva! É muito bonita a Paula.»
É curioso. Normalmente é o contrário. São elas que preferem o casamento religioso. Princesas por um dia.
Ela teria preferido um casamento a dois, pelo registo civil, como nos filmes americanos: de mão dada, rindo, correndo nas ruas de uma cidade, dizer a um transeunte anónimo; «Amamo-nos muito. Quer ser testemunha do nosso casamento?»
Mas nunca fora capaz de impor a sua vontade. De impor, não; de expressá-la apenas. Deveria ter dito que não me apetecia ir ver a tua tia Natália todos os fins-de-semana. Deveria ter tido coragem para te dizer que aqueles incontornáveis encontros semanais me aborreciam profundamente; a tua tia sempre a mostrar as mesmas fotografias: tu aos três anos ao pé de um cavalo de madeira com um gorro de lã e um pompom no alto, tu aos oito anos com brilhantina no cabelo e risco ao lado. «Era um menino muito bonito.» E como eras esperto e trabalhador. Que frete…
«Foi ela que me criou quando a minha mãe morreu.» Bem sei. Devemos mostrar-nos gratos. Ai que prazer ter um dever e não o fazer, dizia o Fernando Pessoa.
De pé, à volta da mesa da sala de jantar, comeram as doze passas e beberam uma taça de champagne, contributo do Zé para a mesa de Ano Novo:
- À nossa e em particular à Paula! – Brindou o André.
Sentada, agora no sofá junto à janela, Paula cruzou o olhar com o do marido que fumava um cigarro:
- Estás bem, Paula? Pareces triste.
Dizem que quando estamos a morrer, vemos toda a nossa vida passar diante dos nossos olhos como a película de um filme, numa fracção de segundos. Será que é aos quarenta e cinco que fazemos o balanço da vida sonhada e da vida vivida, que pesamos os desejos e as frustrações?
- Eu? Porque havia de estar triste?
«Tens um homem lindo que te adora, uma casa bonita que é tua, um carro, não tens dívidas, és uma mulher bonita, saudável, tens dois filhos fantásticos que nunca te deram problemas, Paula, sempre foram bons alunos, nunca se meteram nas drogas. Olha para mim, casei-me, divorciei-me, não tenho filhos e provavelmente nunca os virei a ter…». Isto respondera-lhe a Fátima quinze dias atrás quando arranjara coragem para confessar que lhe faltava qualquer coisa na vida,«um não sei quê que não consigo definir».
A Fátima tinha razão . Tinha tudo para ser feliz. Amava o marido e sabia que era amada. «És tão bonita , mãe», dizia-lhe o mais pequenino quando a via a pentear-se frente ao espelho da cómoda antes de sair.
O mais pequenino?! Dezoito anos. Para o próximo ano está na universidade com o irmão. . Aguentaremos a despesa? Um ordenado só, e dois filhos a estudarem? Tem notas para conseguir uma Bolsa e o ordenado do pai é bom…
«Devias ficar em casa, Paula. Do que é que te servem esses cursos que andas a fazer no centro de formação? Ganhas uma miséria. Temos um pezinho de meia razoável, não somos de fazer grandes despesas e o meu ordenado dá muito bem para vivermos sem dificuldades.»
Cedera às suas palavras. É bem verdade que não se arrependia de ter ficado com os filhos. Ninguém lhe poderia tirar os momentos mágicos que passara com eles na infância. Conhecia-os melhor do que a si própria. Mas talvez residisse ali o «não sei quê» que não conseguia definir. Sempre cedera, sempre contemporizara, sempre fizera o que os outros esperavam que ela fizesse. Um frade franciscano dissera-lhe um dia que a palavra Sim era a palavra da Virgem Maria. O Sim da Anunciação. O Sim da Aceitação. O Sim do Sacrifício. O Sim da Resignação.
Nunca deveria ter desistido de um projecto pessoal de vida. Não devia ter ficado só com o sétimo ano do liceu. Devia ter ido para a Universidade. Gostaria tanto de ter estudado literatura. Devia ter casado mais tarde, tinha só vinte anos.»
Lembrou-se, então, que dois dias atrás sonhara que o marido e os filhos lhe haviam morrido, mas em vez de uma sensação de angústia, sentira-se livre e voara sobre um lago de água clara. Perdoai-nos, Senhor, por pensamentos, actos e omissões…
«Sabes, Paula – concluirá a Fátima naquela dia – quando a sobrevivência é um problema que já não se coloca, começamos a exigir mais à vida, talvez demasiado, e talvez devêssemos antes agradecer-lhe vivê-la com dignidade. Podia agora falar-te dos que passam fome, das mulheres que são espancadas pelos maridos, mas sei que com os problemas dos outros podemos nós muito bem. Mas uma coisa te posso dizer, Paula, por experiência própria; não se pode ter tudo na vida.»
Paula puxou o cabelo para trás, afastou aqueles pensamentos e deu a mão ao marido:
- E se fossemos partir o bolo?
- Já estava a pensar que te tinhas esquecido, Paula – disse a Lena – e não te esqueças de pedir um desejo – acrescentou, ainda.

Mas não se lembrou de nenhum. Fechou os olhos e apagou as velas.

Publicado por Maria Adelaide às 04:29 PM | Comentários (2)