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fevereiro 26, 2004
Branco
O velho poeta fitou o branco da folha, os batimentos cardíacos acelerados, mas as palavras adormecidas não surgiam.
Só via cores.
Cores que associava a sentimentos e atitudes.
O amarelo da cobardia.
O verde da inveja.
O vermelho da paixão.
E o branco. A mais cruel das cores para um criador da palavra.
O branco da improdutividade. O branco do medo da improdutividade para sempre.
O branco das folhas que se amarrotam com palavras e frases soltas como pedaços de alma atirados ao lixo.
Publicado por Maria Adelaide às 10:40 PM
fevereiro 19, 2004
Cinco palavras a propósito da proibição Francesa do lenço e véu Islâmicos
Integração: Veio-me à ideia o facto tantas vezes constatado de emigrantes Portugueses em França falarem Francês em Portugal em vez da sua língua materna, o que nunca verifiquei em emigrantes Portugueses que tivessem residido na Alemanha, nos Estados Unidos ou no Canadá.
Perda de identidade? Reflexos de uma identidade imposta? Serão os emigrantes em França «obrigados» a ser Franceses? Será isso a integração, ou outra forma de segregação? O que é integrar? Obrigar o outro a ser como nós ou aceitar a identidade do outro que é diferente da nossa?
Submissão: Das recordações de infância da aldeia alentejana onde nasci e vivi vinte e sete anos, guardo a imagem das mulheres idosas que nunca saíam à rua sem um lenço na cabeça, símbolo do decoro e da respeitabilidade das mulheres «sérias».
Estará a França preocupada com a submissão feminina evidenciada no uso do véu ou lenço islâmicos, não sendo a sua proibição mais do que a uniformização libertadora do laicismo?
Demografia e Medo: Quando aliadas, tornam-se grandes protagonistas da História e das decisões políticas. Não estarão elas nos alicerces dos muros que Ariel Sharon insiste em construir para segregar a comunidade Palestiniana da comunidade Judia, ameaçada a última pela demografia da primeira?
Estará a França com medo? Medo dos cinco milhões de Muçulmanos que habitam o seu território? Medo de ver ameaçada a matriz ocidental da cultura Francesa? Medo da extrema-direita Francesa que colhe votos no medo dos Franceses?
Legitimidade: Será legítimo o exercício de autoridade de um estado laico sobre o foro do religioso?
E será legítimo condenar a França quando, em países Islâmicos, as turistas ocidentais têm que adaptar a moda ocidental às restrições ao vestuário feminino ou as reporteres ocidentais têm que cobrir a cabeça para o exercício do seu trabalho?
Nada é linear nas sociedades humanas…
Publicado por Maria Adelaide às 06:27 PM
fevereiro 11, 2004
Só
Começou por sair da terra onde nascera, convicta de que não tinha raízes que a prendessem nem fronteiras que a delimitassem.
Pouco a pouco, foi cortando os laços que a ligavam às suas origens:
'- Então, filha? Não tens telefonado.
- Não tenho tido tempo…
- Estás bem?
- Estou…
- Não queres vir passar um fim-de-semana connosco? Temos saudades tuas.
- Agora não posso. Mais tarde...'
No trabalho, que desempenha num escrupuloso desinteresse, mero sustentáculo da sua sobrevivência, deixou de 'larachar' com os colegas.
Coitados. Todos medíocres. Nada sabem de arte. De literatura. De música. Nem sabem das suas gavetas cheias de poemas com palavras cujo sentido desconhecem ou os quadros que pinta com tonalidades de cor que não imaginam possam criar-se:
'- Ei, Carmo! Sai dessa concha, diz qualquer coisa à gente.
- O que é que queres que te diga?
- Sei lá, conta uma anedota…olha, não queres sair connosco no domingo? Um passeio à costa alentejana. Os dias estão bonitos.
- Não, obrigada. Sinto-me cansada. Prefiro ficar em casa.
- Ai, sim? Tu lá sabes…mas sempre te digo que andas muito isolada, afastada das pessoas e isso não é lá muito saudável. Mais dia, menos dia, todos vimos a precisar uns dos outros, sabes?'
Alguém escreveu que nenhum homem é uma ilha. Não é verdade. Somos todos ilhas. Estamos todos sós. Todos refugiados numa redoma que rodeia os nossos sonhos, os nossos medos, os nossos segredos mais inconfessáveis.
Deixou de sair aos fins-de-semana. À sexta-feira, depois das cinco, corre ao supermercado mais próximo, compra tudo o que precisa para a semana, fecha a porta à chave que só volta a abrir na segunda-feira de manhã para o regresso rotineiro ao trabalho.
Se a pudéssemos espreitar no próximo sábado, talvez a encontrássemos a um canto de uma divisão da casa, contemplando masturbadora e embevecidamente a sua criação artística que ninguém conhece porque tem medo de a dar a conhecer.
Publicado por Maria Adelaide às 06:58 PM | Comentários (1)
fevereiro 05, 2004
Breves
Por que buscam os homens a produtividade?
Para sua maior felicidade.
Mas na procura da produtividade, há fábricas que fecham, trabalhadores desempregados, desempregados infelizes.
Quem serve quem, então?
Os sistemas económicos servem os homens ou os homens servem os sistemas económicos?
Não, mas:
Os defensores do Não à despenalização do aborto dizem que não têm coragem de mandar para a prisão as mulheres que, por circunstâncias da sua vida, recorreram ao aborto; mas, então, para que serve uma lei quando falta a coragem para a aplicar?
Armas de destruição maciça:
Num artigo do Diário de Notícias de 4 de Fevereiro, e cito, «…o secretário de Estado americano lembra que, se Saddam não tinha esse tipo de armas, tinha, pelo menos, a intenção de as obter.»
Com o devido respeito e salvas as devidas distâncias, veio-me à ideia as anedotas dos energúmenos que batem nas mulheres ou dos fedelhos que batem nas manas mais novas:
- Mas eu não fiz nada…
- Não fizeste, mas pensaste.
Publicado por Maria Adelaide às 09:52 PM | Comentários (1)