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março 26, 2004

O Meio e os Fins

E pronto. Com um missil, Ariel Sharon reduziu a partículas o velho assassino do Hamas e, ao mesmo tempo, conseguirá não um, não dois, não três, mas quatro objectivos: radicaliza a situação no Médio Oriente, espicaçando os grupos terroristas que, ao retaliarem, 'legitimarão' qualquer atitude de força do líder Israelita e anularão as posições dos moderados ( ainda os há? ) de ambos os lados do conflito Israelo-Palestiniano, sem contar que a opinião pública Israelita ( à semelhança do que parece acontecer com os presidentes americanos escudados na guerra para ofuscar fraquezas internas ) esquecerá o caso de corrupção em que Ariel Sharon e o filho estão atolados.

Publicado por Maria Adelaide às 02:23 PM | Comentários (3)

março 19, 2004

Nostalgia ao Almoço

Tivera a ideia do almoço quando, ao dar volta às gavetas da estante da sala, encontrara o velho álbum com fotografias de solteira.
Na terceira página, ela, a Teresa, o Diogo, o Francisco e o Alberto numa fotografia a preto e branco no alto da escadaria da igreja.
Quem lhes tirara a fotografia? Já nem se lembrava...o pai do Francisco. Isso mesmo, o pai do Francisco, de entre os poucos que possuíam máquina fotográfica na terra. Fora na Páscoa. Ela de vestido com machos, sapatos de verniz preto e meias brancas até ao joelho.
' E agora trata de te sujares na brincadeira com os moços.', dissera-lhe a mãe que nunca aceitara que a filha brincasse na rua com os rapazes. 'O lugar das meninas é em casa.', repetia ingloriamente.
A Teresa com o chapéu de palha de abas curtas e fita azul que a acompanhava toda a semana, dias santos e feriados. 'É por causa do sol.' Sangrava constantemente do nariz.
O Diogo de mãos nos bolsos, exactamente na mesma posição em que o encontrara junto ao altar onde esperava por ela no dia do casamento.
O Francisco, vaidoso, sorriso ensaiado, posando para a fotografia.
O Alberto, a boca entreaberta, o olhar franco quase de espanto, como nas primeiras aulas de iniciação de Inglês, ouvindo o 'No' da professora ao 'My name's a boy', resposta convicta à pergunta 'What's your name?'. As línguas não eram o seu forte.
Junto da Teresa, com quem mantivera o contacto ao longo dos anos, conseguiu os números de telefone do Francisco e do Alberto. Com exclamações de surpresa e de alegria, todos aceitaram o convite.
Na véspera, Célia foi ao cabeleireiro e convenceu o Diogo a levar fato e gravata. Na mala guardou algumas fotografias das filhas, três fotocópias da fotografia que despertara a saudade dos tempos idos e um discurso que tencionava ler antes do almoço, repleto de referências nostálgicas: as batas brancas da instrução primária, as rifas da caixa de chocolates no Natal e do pacote de amêndoas pela Páscoa, os mealheiros quebrados na véspera da feira, os vidros partidos nos bancos de trás da camioneta que os fazia chegar enregelados ao liceu nas manhãs de Inverno, o enjoo dos primeiros cigarros fumados atrás do ginásio...

Teresa puxou de um cigarro após o café. Engordara. Os dentes e as pontas dos dedos estavam amarelos do tabaco. Tossiu.
- Não querias deixar de fumar? - perguntou-lhe a Célia. - Tens obrigação de saber, trabalhando ao balcão de um centro de saúde, que o tabaco ... Hospedeira de bordo, Célia. Quero viajar, conhecer outra gente
- Queria, mas desisti. Chegava ao fim do dia irritada e insuportável para toda a gente.
- Mas estás bem?
- Mais ou menos...
- Então?
- Estou com diabetes. Sabes como é que é. Sempre à pressa, pouco tempo para almoçar...
- Calculo. Mas tens que fazer um esforço para te alimentares melhor.
- Um esforço...tu não fazes ideia do inferno que é a vida em Lisboa, Célia. Estás aqui no nosso Alentejo profundo, tens tempo para tudo. Sais das tuas aulas...tens alunos de que ano?
- Quarto ano.
- Não precisas apanhar tranportes públicos, tens tempo para ler, para conversar com as tuas filhas, para estar contigo mesma...
- Nem tanto...e ouve lá, o teu marido? Continua a fazer hemodiálise?
- Que remédio, coitado. Continua em lista de espera, mas não é fácil conseguir um dador compatível.
- Costumas encontrar o Alberto ou o Francisco?
- É raro, mas às vezes vejo-os. Lisboa náo é a nossa aldeia, Célia.
- Sei isso muito bem, minha alfacinha. Mas achas que eles estão bem?
- O Alberto, sim. O Francisco nem tanto.
- O que é que queres dizer com isso?
- Sabes como é o Alberto. Pacato. Tem uma vida estável. É camionista na E.V.A. Está nos quadros da empresa. É dono do apartamento onde vive.
- O que é que a mulher faz?
- É educadora infantil...mas ironia do destino; não têm filhos como sabes.
- Bem sei.
- Mas adoram-se. São felizes.
- E por que é que dizes, 'O Francisco nem tanto'?
- O Francisco era ambicioso, Célia, e há vinte e cinco anos que é caixa no banco. Ainda me lembro que quando lhe perguntávamos o que é que ele gostaria de seguir respondia sempre, 'qualquer coisa, desde que dê muito dinheiro'...o filho mais velho não lhe fala.
- Porquê?
- Não sei. Mas deve ter a ver com o divórcio dos pais.
- O mais novo está com a mãe?
- Está e constou-me que está com problemas de droga. O Francisco vê o filho aos fins de semana, não sei se todos , se de quinze em quinze dias.
- Mas a Lídia, a segunda mulher, parece ser muito boa pessoa.
- E é.
Haviam-na, praticamente, ignorado durante todo o almoço. Sorriso breve, olhar baixo e tímido.
- O que é que vocês as duas estão a cochichar uma com a outra? Aposto que estão a cortar na casaca cá do Chico. - disse o Francisco, aproximando-se de copo na mão.
- Teresa!- chamou o marido- anda cá ver uma fotografia que o Diogo me está a mostrar.
- Com licença - pediu a Teresa - eu já volto.
- E então, Francisco, como é que tu estás? - recomeçou a Célia.
- Porreiro, pá. A Lídia é espectacular. Atura-me. Os putos são fixes...nunca mais viste a Lurdes?
- Não. Nunca mais a vi...
- É um crime, Célia.
- o que é que é um crime, Francisco?
- Um pecado imperdoável.
- Do que é que estás a falar?
- Recusar o amor de alguém, Célia. É um crime.
Ninguém, no grupo, conseguira compreender como é que a Lurdes, uma rapariga que não era particularmente bonita nem inteligente, despertara aquela paixão no Francisco. Mais intrigante que a paixão do Francisco fora a recusa da Lurdes em aceitar-lhe o namoro após um longo arrastar de asa. O Francisco era atraente, esperto, bem-humorado...
- E agora, meus amigos, um copo às nossas recordações- propôs o Francisco, erguendo o dele.
- Não bebas mais Francisco. Ainda tens que conduzir.- recomendou-lhe a Lídia.
- 'Tá' calada! Conduzes tu...ah, é verdade, nem carta tens. Aliás, nem devias estar aqui. Não pertencias ao grupo nem partilhas as nossas memórias.
- Calma, Francisco - interveio o Alberto, conciliador - a tua mulher tem razão; já bebeste bastante. Olha que não queremos encerrar este almoço com o teu funeral.
Célia aproximou-se de Lídia e afagou-lhe o braço:
- Deixe lá, Lídia. Os homens quando estão com um copo a mais dizem estes disparates...mas quem sou eu para estar com esta conversa; conhece-o melhor que eu com certeza.
- Não sei. Nós achamos sempre que sim, não é? Que os conhecemos muito bem. E sobretudo que os conseguimos mudar. Penso muitas vezes que ele não me ama verdeiramente, que precisa apenas de mim e não suportaria que eu o deixasse. O Francisco parece ter perdido qualquer coisa de muito importante que nem mesmo ele sabe o que é.
A vida faz-me lembrar um comboio, sabe? Um comboio em andamento que nunca espera por ninguém. Há aqueles que têm a sorte de apanhar a carruagem certa e aqueles que saltam de umas para outras, tropeçam, ferem-se, erguem-se e nunca alcançam a carruagem dos seus sonhos. E o pior de tudo é que não se pode voltar atrás e refazer o caminho.

E talvez por isso aquele almoço deixou um travo amargo. Alguém sugeriu, nas dspedidas, que podiam voltar a reunir-se noutro almoço. Alguém respondeu que era uma boa ideia. Todos sorriram. Mas ninguém se ofereceu para o organizar.

Publicado por Maria Adelaide às 02:24 PM | Comentários (2)

março 04, 2004

Paralelismos

No dia seguinte ao terramoto de 1755, o Marquês de Pombal recusava o auxílio da corte de França, dando a saber ao embaixador francês que daí em diante 'a Nação voltava à sua simplicidade antiga'.
Em História, os paralelismos são cientificamente incorrectos porque omitem a especificidade de cada época: os condicionalismos económicos, sociais e políticos quer internos quer externos. Mas, por outro lado, porque assenta na dialéctica passado-presente, ela tem a legitimidade de questionar quer um quer o outro, daí que, lendo aquela frase num manual de História do ensino secundário, não tenha podido deixar de contrastar a atitude daquele governante português do sec.XVIII com as dos nossos governantes do séc.XXI; tanta satisfação (eleitoralista) porque os subsídios da União Europeia que deveriam cessar em 2006, vão afinal, ao que parece, continuar a ser concedidos em 2007 ( benefícios do nosso silêncio perante o desrespeito da França pelo Pacto de Estabilidade? ).
Paralelismos históricos à parte, a recusa do Marquês de Pombal perante a proposta do embaixador francês no séc XVIII. revelava independência, confiança na Nação e audácia. A confortável e despreocupada habituação ao subsídio na actualidade é um retrato do país nos inícios do séc.XXI: um país dependente dirigido por uma classe política sem rasgo que empreende medidas avulsas em vez de liderar um verdadeiro projecto nacional.

Publicado por Maria Adelaide às 04:47 PM | Comentários (1)