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setembro 22, 2004

Quando ainda parece mentira

Viera soldado o caixão do soldado José Piçarra, morto em Angola no rebentamento de uma mina, decorria o ano de 1970.
Soldado viera e soldado descera o caixão à terra, sem que um olhar derradeiro pudesse ser lançado sobre o corpo desfeito do jovem José Piçarra.
Disseram as vozes mais racionais que o caixão não pudera ser aberto porque a lonjura que separava a aldeia daquela terra negra de Angola teria decomposto o corpo estropiado do José Piçarra de tal maneira que o cheiro pestilento que exalaria, poria em perigo a saúde de quem lhe viesse prestar as últimas homenagens.
Outras vozes, porém, rodearam de mistério a primeira perda de um filho da terra naquelas paragens africanas, onde e para sempre fora encerrado num caixão soldado: 'Não é ele que está ali', 'É outro por ele', 'Sabe-se lá o que lá está dentro'. A vizinha Perpétua, na autoridade dos seus oitenta anos de histórias ouvidas, contadas e acrescentadas, lembrou mesmo, 'Já tem acontecido. Pensam que eles estão mortos e eles aparecem ao fim de anos. Já elas estão com outros, com filhos e tudo.'
A Benvinda, namorada do José Piçarra desde os quinze anos, nem uma lágrima deitou nos ritos fúnebres nem um flor colocaria na campa nos meses que se seguiram ( o que outros muito haviam de censurar ).
Logo na noite após o funeral, sonhou Benvinda que do caixão aberto saíam flores e borboletas e que nenhum corpo o ocupava. Nas semanas que se seguiram, apenas uma leve ponta de tristeza e de saudade de mistura com uma verdadeira exaltação do espírito sempre que pensava nele e pensava sempre: sentia, por um conhecimento que lhe vinha de dentro que, algures e em algum tempo, voltaria a encontrá-lo.

Publicado por Maria Adelaide às 05:40 PM | Comentários (4)

setembro 01, 2004

Em Tua Memória.

Volto a este espaço, depois de tão prolongada ausência, para dar testemunho da minha experiência num hospital S.A. do nosso país.
O contacto do médico com o paciente internado: faz-se preferencialmente de forma administrativa; ou seja, o médico contacta com o processo do doente que se avoluma com os relatórios diários do pessoal da enfermagem. O contacto humano do médico com o seu paciente é francamente esporádico, de que resulta, no paciente, o desânimo, a descrença e a sensação de abandono.
É bem verdade que cada médico tem a seu cargo, nos nossos hospitais, um elevado número de doentes, mas iria tão a desfavor da tão almejada eficácia que cada médico dispensasse diariamente dois minutos de proximidade humana a cada um dos seus doentes?
A ditadura da eficaz gestão das camas: é de tal ordem que um doente com um cancro em fase terminal pode ser colocado numa ambulância sem se esperar pelo seu acompanhante, pode ser 'despejado' como se de uma peça de mobiliário se tratasse nas horas de maior calor , correndo o risco de desidratação porque há um número infindável de doentes que 'cobiçam' a sua cama. Isto aconteceu de facto, acreditem, no hospital distrital de Beja.
É bem verdade que aquela cama entretanto vaga pode salvar uma vida quando já nada há a fazer pela anterior ocupante. Mas, então, que se proceda com menos frieza e com mais humanidade porque estamos a falar de pessoas onde a fragilidade e precaridade da condição humana atingiram o seu ponto máximo.
Expulsos dos hospitais S.A, os doentes terminais ingressam, então, nos hospitias de rectaguarda. Rectaguarda, via sem saída, fim da linha, antecâmara da morte. Impotentes, os familiares, porque trabalham e é necessário o soro e a sonda e o oxigénio e a morfina, deixam-nos, então, morrer desenraizados sob um tecto estranho.
Terá mesmo que ser assim?
Pessoalmente, em vez dos hospitais de rectaguarda,preferia ver alargadas as instalações dos verdadeiros hospitais, aumentado o número de camas e que neles fosse prestada uma assistência condigna; a todos os doentes, curáveis e incuráveis.
Ficarão os hospitais de rectaguarda, de facto, mais baratos ao estado português? E não existirão por trás deles, de facto, interesses menos confessáveis?

Publicado por Maria Adelaide às 08:36 PM | Comentários (2)