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outubro 30, 2004

Por linha feminina

Já sua avó assim o fizera: no dia de finados depositava um ramo de crisântemos nas sepulturas dos seus mortos.
Apesar de ter irmãos, era ela, como mulher, que assumia esse ritual dos vivos em memória dos que já haviam partido. Da mesma forma que fora ela, como filha e mulher, que valera primeiro ao pai e depois à mãe quando as forças os abandonaram. Estivera à cabeceira da cama onde os pais haviam morrido como estivera aos pés da mesma cama quando a neta nascera. A mesma panela aquecera a água com que lavara a neta chegada ao mundo e lavara o corpo dos pais que dele partiam, como se de uma sacerdotisa se tratasse, uma sacerdotisa da vida e da morte, as duas faces da existência humana.
Também a sua mãe herdara a obrigação feminina de cuidar dos vivos e perpetuar a memória dos mortos. Substituira a avó nas preocupações e cuidados com os velhos da família, confortara-os nos momentos de desânimo e estivera presente nos momentos finais.
Chegara agora a sua vez. Ela cujos filhos nasceram num hospital e cujos pais morreram num lar. Ela que é esposa, mãe, cidadã. Ela que trabalha em casa e fora dela. Ela que não tem tempo e quer tempo para si. Ela que reivindica direitos inimagináveis no espírito de sacríficio da sua avó ou da sua mãe: o direito ao sonho, à fantasia, à felicidade. Ela cujo dia a dia a distancia da sua mãe e da sua avó, irá, no entanto, simbolicamente, continuar essa cadeia que, por gerações, ligou a vida e a morte em linha feminina: deixará crisântemos nas campas dos pais e dos avós.

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Publicado por Maria Adelaide às 07:57 PM | Comentários (2)