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novembro 23, 2004
Asa
Não era capaz. A excitação e euforia pela decisão tomada, com que acordara de manhã, fora-se desvanecendo ao longo do dia. Quando tomara o autocarro, a vontade de ir já a abandonara, embora o desejo persistisse.
E agora ali estava, sentada num banco, frente ao edifício da editora, com uma aguda sensação de derrota, em vez da vitória que a sua fantasia projectara. Ao lado pousavam os textos que fora escrevendo entre a secagem da roupa e o passar a ferro, o tacho ao lume e o pôr da mesa, o banho das gémeas e a corrida ao supermercado
Pensara ser mais fácil mostrar a estranhos a nudez da sua alma, mas o que lhes diria? 'Tenho aqui uns textos'(?!),'Crónicas'(?!),'Contos'(?!). Não saberia integrá-los numa categoria. Sabia apenas que eram retalhos da sua vida, das suas emoções, dos seus sentimentos, das suas referências e experiências, dos seus medos e frustrações.'Têm valor?'. 'Podem publicar-se?'.
Não era capaz. E agora ali estava vendo passar quem passava. Quantas aspirações e desenganos carregavam aqueles passantes?
E, num espaço vazio, algures entre a razão e o coração, soaram uns versos de Mário de Sá Carneiro:
'Um pouco mais de sol e eu era brasa
'Um pouco mais de azul e eu era além
'Para atingir faltou-me um golpe de asa...'
Publicado por Maria Adelaide às 12:00 AM | Comentários (1)