fevereiro 17, 2005
Contra o Tempo
'Vai lá para fora, apanhar ar. Sempre fechada no quarto a fazer sabe-se lá o quê...'
Estava com o seu amigo imaginário, um segredo que não partilhava com ninguém, nem com a Joana, a melhor amiga da escola, quanto mais com a mãe que sentia distante de si, quase sempre ocupada com a imagem que o espelho lhe devolvia.
'Dói-me a barriga, mãe!', esperando um carinho.
'Isso não é nada! Vai brincar que logo passa.'
Que inveja tinha dos acessos de ternura que a mãe da Joana dispensava à filha.
'Rosa, dê banho à Luisinha e veja se ela faz os trabalhos de casa. Até logo.'Um beijo fugaz, sem mimo. Um perfume doce na face macia da mãe.
'Devias ter um pouco mais de brio no vestir,Luisinha. Olha esse cabelo, todo espigado. Amanhã vais comigo ao cabeleireiro.'
'Não gosto do rapaz com quem andas. Nem sequer tem uma licenciatura. Não se faz um bom casamento quando a mulher é mais instruída que o marido. E além disso, de que famílias é que ele vem? Lembra-te do nome que carregas. O teu avô era um médico respeitado por todos.'
Mas casou com o homem de quem a mãe não gostava. E o nascimento dos gémeos também não melhorou o relacionamento. Antes pelo contrário. Ser avó, evidenciava-lhe o inevitável envelhecimento.
No hospital, esperavam-na uns olhos assustados como na fotografia a preto e branco em que a mãe, ainda uma criança, dava a mão ao pai com um mar encrespado ao fundo.
'Filha', numa voz sem esperança.
Vinha determinada a levá-la consigo pelos poucos dias de vida que lhe restavam. Quisera estar próximo dela na morte como nunca estivera em vida. As mãos dela nas suas mãos, o olhar da mãe nos seus olhos, a serenidade de um último sorriso.
Mas a morte veio rápida, voraz e indiferente aos afectos adiados.
Publicado por Maria Adelaide às 07:06 PM