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<title>Mulheres</title>
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<copyright>Copyright (c) 2005, Maria Adelaide</copyright>
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<title>Contra o Tempo</title>
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<summary type="text/plain">&apos;Vai lá para fora, apanhar ar. Sempre fechada no quarto a fazer sabe-se lá o quê...&apos; Estava com o seu amigo imaginário, um segredo que não partilhava com ninguém, nem com a Joana, a melhor amiga da escola, quanto mais...</summary>
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<![CDATA[<p>'Vai lá para fora, apanhar ar. Sempre fechada no quarto a fazer sabe-se lá o quê...'<br />
Estava com o seu amigo imaginário, um segredo que não partilhava com ninguém, nem com a Joana, a melhor amiga da escola, quanto mais com a mãe que sentia distante de si, quase sempre ocupada com a imagem que o espelho lhe devolvia.<br />
'Dói-me a barriga, mãe!', esperando um carinho.<br />
'Isso não é nada! Vai brincar que logo passa.'<br />
Que inveja tinha dos acessos de ternura que a mãe da Joana dispensava à filha.<br />
'Rosa, dê banho à Luisinha e veja se ela faz os trabalhos de casa. Até logo.'Um beijo fugaz, sem mimo. Um perfume doce na face macia da mãe.<br />
'Devias ter um pouco mais de brio no vestir,Luisinha. Olha esse cabelo, todo espigado. Amanhã vais comigo ao cabeleireiro.'<br />
'Não gosto do rapaz com quem andas. Nem sequer tem uma licenciatura. Não se faz um bom casamento quando a mulher é mais instruída que o marido. E além disso, de que famílias é que ele vem? Lembra-te do nome que carregas. O teu avô era um médico respeitado por todos.'<br />
Mas casou com o homem de quem a mãe não gostava. E o nascimento dos gémeos também não melhorou o relacionamento. Antes pelo contrário. Ser avó, evidenciava-lhe o inevitável envelhecimento.</p>

<p>No hospital, esperavam-na uns olhos assustados como na fotografia a preto e branco em que a mãe, ainda uma criança, dava a mão ao pai com um mar encrespado ao fundo.<br />
'Filha', numa voz sem esperança.<br />
Vinha determinada a levá-la consigo pelos poucos dias de vida que lhe restavam. Quisera estar próximo dela na morte como nunca estivera em vida. As mãos dela nas suas mãos, o olhar da mãe nos seus olhos, a serenidade de um último sorriso.<br />
Mas a morte veio rápida, voraz e indiferente aos afectos adiados. <br />
 <br />
  </p>

<p>         </p>]]>

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<title>O mito do providencialismo</title>
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<![CDATA[<p>Filiado ou não no sebastianismo, o mito dos homens providenciais parece remontar ao liberalismo regenerador do nosso século XIX que em muito se assemelha a esta alvorada do nosso democrático século XXI. Basta pensar  no rotativismo partidário, na descredibilização da classe política e outros aspectos que poderemos encontrar na crítica mordaz de Eça de Queiroz.<br />
Em tempos de crise, de desnorte, de descrédito, lá voltava o general Saldanha ao palco político da Regeneração. No nosso século XX, a instabilidade política, económica e social da Primeira República havia de abrir caminho à providência de Salazar (que fanáticos e enganadores propagandistas diziam estar já retratado na maior obra da pintura portuguesa do séc.XV; os painéis de São Vicente),fundador do autoritário Estado Novo que 'providencialmente' nos governaria por quase meio século.<br />
Pede-se agora o regresso de mais um homem providencial; Cavaco Silva, a quem o país, sem dúvida, deve as vias de comunicação e o desenvolvimento económico com o recurso aos fundos estruturais da União Europeia, da mesma forma que a Fontes Pereira de Melo deve a sociedade portuguesa oitocentista a política de infra-estruturas viárias com o recurso aos empréstimos externos e ao crescimento da dívida pública.</p>

<p>Gosto da dialéctica passado/presente. Mal vai o país que não aceita a sua História.<br />
Gosto do respeito pelos valores do passado. Mas não gosto de homens providenciais.<br />
Mal vai o país que não encontra em homens do presente uma promessa de futuro. </p>

<p><img alt="salazar2.jpg" src="http://mulheres.weblog.com.pt/arquivo/salazar2.jpg" width="200" height="780" />  <br />
     </p>]]>

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<title>Asa</title>
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<summary type="text/plain"> Não era capaz. A excitação e euforia pela decisão tomada, com que acordara de manhã, fora-se desvanecendo ao longo do dia. Quando tomara o autocarro, a vontade de ir já a abandonara, embora o desejo persistisse. E agora ali...</summary>
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<![CDATA[<p><img alt="voo.jpg" src="http://mulheres.weblog.com.pt/arquivo/voo.jpg" width="291" height="206" /> </p>

<p><br />
Não era capaz. A excitação e euforia pela decisão tomada, com que acordara de manhã, fora-se desvanecendo ao longo do dia. Quando tomara o autocarro, a vontade de ir já a abandonara, embora o desejo persistisse.<br />
E agora ali estava, sentada num banco, frente ao edifício da editora, com uma aguda sensação de derrota, em vez da vitória que  a sua fantasia projectara. Ao lado pousavam os textos que fora escrevendo entre a secagem da roupa e o passar a ferro, o tacho ao lume e o pôr da mesa, o banho das gémeas e a corrida ao supermercado<br />
Pensara ser mais fácil mostrar a estranhos a nudez da sua alma, mas o que lhes diria? 'Tenho aqui uns textos'(?!),'Crónicas'(?!),'Contos'(?!). Não saberia integrá-los numa categoria. Sabia apenas que eram retalhos da sua vida, das suas emoções, dos seus sentimentos, das suas referências e experiências, dos seus medos e frustrações.'Têm valor?'. 'Podem publicar-se?'.<br />
Não era capaz. E agora ali estava vendo passar quem passava. Quantas aspirações e desenganos carregavam aqueles passantes?<br />
E, num espaço vazio, algures entre a razão e o coração, soaram uns versos de Mário de Sá Carneiro:<br />
'Um pouco mais de sol e eu era brasa<br />
'Um pouco mais de azul e eu era além<br />
'Para atingir faltou-me um golpe de asa...' </p>

<p>   </p>]]>

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<title>Por linha feminina</title>
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<summary type="text/plain">Já sua avó assim o fizera: no dia de finados depositava um ramo de crisântemos nas sepulturas dos seus mortos. Apesar de ter irmãos, era ela, como mulher, que assumia esse ritual dos vivos em memória dos que já haviam...</summary>
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<![CDATA[<p>Já sua avó assim o fizera: no dia de finados depositava um ramo de crisântemos nas sepulturas dos seus mortos.<br />
Apesar de ter irmãos, era ela, como mulher, que assumia esse ritual dos vivos em memória dos que já haviam partido. Da mesma forma que fora ela, como filha e mulher, que valera primeiro ao pai e depois à mãe quando as forças os abandonaram. Estivera à cabeceira da cama onde os  pais haviam morrido como estivera aos pés da mesma cama quando a neta nascera. A mesma panela aquecera a água com que lavara a neta chegada ao mundo e lavara o corpo dos pais que dele partiam, como se de uma sacerdotisa se tratasse, uma sacerdotisa da vida e da morte, as duas faces da existência humana.<br />
Também a sua mãe herdara a obrigação feminina de cuidar dos vivos e perpetuar a memória dos mortos. Substituira a avó nas preocupações e cuidados  com os velhos da família, confortara-os nos momentos de desânimo e estivera presente nos momentos finais.<br />
Chegara agora a sua vez. Ela cujos filhos nasceram num hospital e cujos pais morreram num lar. Ela que é esposa, mãe, cidadã. Ela que trabalha em casa e fora dela. Ela que não tem tempo e quer tempo para si. Ela que  reivindica direitos inimagináveis no espírito de sacríficio da sua avó ou da sua mãe: o direito ao sonho, à fantasia, à felicidade. Ela cujo dia a dia a distancia da sua mãe e da sua avó, irá, no entanto, simbolicamente, continuar essa cadeia que, por gerações, ligou a vida e a morte em linha feminina: deixará crisântemos nas campas dos pais e dos avós. </p>

<p><img alt="chysanthemum.jpg" src="http://mulheres.weblog.com.pt/arquivo/chysanthemum.jpg" width="416" height="281" />             <br />
   </p>]]>

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<title>Quando ainda parece mentira</title>
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<issued>2004-09-22T17:40:11Z</issued>
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<summary type="text/plain">Viera soldado o caixão do soldado José Piçarra, morto em Angola no rebentamento de uma mina, decorria o ano de 1970. Soldado viera e soldado descera o caixão à terra, sem que um olhar derradeiro pudesse ser lançado sobre o...</summary>
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<![CDATA[<p>Viera soldado o caixão do soldado José Piçarra, morto em Angola no rebentamento de uma mina, decorria o ano de 1970.<br />
Soldado viera e soldado descera o caixão à terra, sem que um olhar derradeiro pudesse ser lançado sobre o corpo desfeito do jovem José Piçarra.<br />
Disseram as vozes mais racionais que o caixão não pudera ser aberto porque a lonjura que separava a aldeia daquela terra negra de Angola teria decomposto o corpo estropiado do José Piçarra de tal maneira que o cheiro pestilento que exalaria, poria em perigo a saúde de quem lhe viesse prestar as últimas homenagens.<br />
Outras vozes, porém, rodearam de mistério a primeira perda de um filho da terra naquelas paragens africanas, onde e para sempre fora encerrado num caixão soldado: 'Não é ele que está ali', 'É outro por ele', 'Sabe-se lá o que lá está dentro'. A vizinha Perpétua, na autoridade dos seus oitenta anos de histórias ouvidas, contadas e acrescentadas, lembrou mesmo, 'Já tem acontecido. Pensam que eles estão mortos e eles aparecem ao fim de anos. Já elas estão com outros, com filhos e tudo.'<br />
A Benvinda, namorada do José Piçarra desde os quinze anos, nem uma lágrima deitou nos ritos fúnebres nem um flor colocaria na campa nos meses que se seguiram ( o que outros muito haviam de censurar ).<br />
Logo na noite após o funeral, sonhou Benvinda que do caixão aberto saíam flores e borboletas e que nenhum corpo o ocupava. Nas semanas que se seguiram, apenas uma leve ponta de tristeza e de saudade de mistura com uma  verdadeira  exaltação do espírito sempre que pensava nele e pensava sempre: sentia, por um conhecimento que lhe vinha de dentro que, algures e em algum tempo, voltaria a encontrá-lo.       <br />
    </p>]]>

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<title>Em Tua Memória.</title>
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<summary type="text/plain">Volto a este espaço, depois de tão prolongada ausência, para dar testemunho da minha experiência num hospital S.A. do nosso país. O contacto do médico com o paciente internado: faz-se preferencialmente de forma administrativa; ou seja, o médico contacta com...</summary>
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<![CDATA[<p>Volto a este espaço, depois de tão prolongada ausência, para dar testemunho da minha experiência num hospital S.A. do nosso país.<br />
O contacto do médico com o paciente internado: faz-se preferencialmente de forma administrativa; ou seja, o médico contacta com o processo do doente que se avoluma com os relatórios diários do pessoal da enfermagem. O contacto humano do médico com o seu paciente é francamente esporádico, de que resulta, no paciente, o desânimo, a descrença e a sensação de abandono.<br />
É bem verdade que cada médico tem a seu cargo, nos nossos hospitais, um elevado número de doentes, mas iria tão a desfavor da tão almejada eficácia que cada médico dispensasse diariamente dois minutos de proximidade humana a cada um dos seus doentes?<br />
A ditadura da eficaz gestão das camas: é de tal ordem que um doente com um cancro em fase terminal pode ser colocado numa ambulância sem se esperar pelo seu acompanhante, pode ser 'despejado' como se de uma peça de mobiliário se tratasse nas horas de maior calor , correndo o risco de desidratação porque há um número infindável de doentes que 'cobiçam' a sua cama. Isto aconteceu de facto, acreditem, no hospital distrital de Beja.<br />
É bem verdade que aquela cama entretanto vaga pode salvar uma vida quando já nada há a fazer pela anterior ocupante. Mas, então, que se proceda com menos frieza e com mais humanidade porque estamos a falar de pessoas onde a fragilidade e precaridade da condição humana atingiram o seu ponto máximo.<br />
Expulsos dos hospitais S.A, os doentes terminais ingressam, então, nos hospitias de rectaguarda. Rectaguarda, via sem saída, fim da linha, antecâmara da morte. Impotentes, os familiares, porque trabalham e é necessário o soro e a sonda e o oxigénio e a morfina, deixam-nos, então, morrer desenraizados sob um tecto estranho.<br />
Terá mesmo que ser assim? <br />
Pessoalmente, em vez dos hospitais de rectaguarda,preferia ver alargadas as instalações dos verdadeiros hospitais, aumentado o número de camas e que neles fosse  prestada uma assistência condigna; a todos os doentes, curáveis e incuráveis.<br />
Ficarão os hospitais de rectaguarda, de facto, mais baratos ao estado português? E não existirão por trás deles, de facto, interesses menos confessáveis?   <br />
                </p>]]>

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<title>Condição Humana</title>
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<modified>2005-09-25T17:11:17Z</modified>
<issued>2004-05-27T14:47:19Z</issued>
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<summary type="text/plain">A hospitalização de um familiar que me é muito querido avivou-me a consciência sobre a condição humana. Traído pelo seu próprio corpo e dele prisioneiro, o homem doente não deixa de lutar pela sua dignidade; como a senhora da cama...</summary>
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<![CDATA[<p>A hospitalização de um familiar que me é muito querido avivou-me a consciência sobre a condição humana. <br />
Traído pelo seu próprio corpo e dele prisioneiro, o homem doente não deixa de lutar pela sua dignidade; como a senhora da cama quarenta que protestava numa voz entaramelada pelo A.V.C. contra o facto do lençol da sua cama estar mais comprido do que a colcha, que recusava veementemente o pijama do hospital para que lhe vestissem a camisa que era sua, que insistia em pegar sozinha no copo de água com a mão que ainda lhe obedecia.<br />
A doença aviva também a esperança, o mais humano dos sentimentos humanos na adversidade; como a senhora da cama quarenta e um que a não quer perder, uma esperança que insiste em persistir, não obstante as evidências nada promissoras da ciência médica.</p>]]>

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<title>Prioridades e Critérios</title>
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<issued>2004-05-13T22:30:09Z</issued>
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<summary type="text/plain">Milhares de docentes ficaram excluídos ou simplesmente eclipsaram-se das listas graduadas do concurso para colocação de professores. Coloquemo-nos na pele desses docentes; com que tranquilidade e paz de espírito ( absolutamente essencias na relação com os discentes) deram as aulas...</summary>
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<![CDATA[<p>Milhares de docentes ficaram excluídos ou simplesmente eclipsaram-se das listas graduadas do concurso para colocação de professores.<br />
Coloquemo-nos na pele desses docentes; com que tranquilidade e paz de espírito ( absolutamente essencias na relação com os discentes) deram as aulas no dia de tais revelações, preocupados que estariam, necessariamente, com as inevitáveis reclamações?<br />
Foi, seguramente, um problema que afectou grande número de famílias portuguesas; dado o elevado número de docentes envolvidos, em quase todas elas, seguramente, um jovem viu o seu professor ou professora atingidos por tamanha incompetência.<br />
E, no entanto, aquele problema nacional não teve honras de abrir os serviços noticiosos; coincidente que foi com a euforia do jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Corunha, foi este que obteve a primazia. Enfim, prioridades e critérios da sociedade portuguesa e dos seus media; primeiro o futebol, depois a educação.<br />
 E, no entanto ainda, nunca como agora se falou tanto de educação. Mas alguém pensa que é possível melhorar o sistema de ensino  sem  a colaboração dos professores? E que contributo dão erros desta envergadura para a motivação dos docentes?</p>]]>

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<title>Prescritos</title>
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<modified>2005-09-25T17:11:17Z</modified>
<issued>2004-04-29T22:36:06Z</issued>
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<summary type="text/plain">&apos;Já vale a pena. Tanto tempo para isto!&apos; Desabafara o senhor António Relvas quando se dera conta do significado da palavra &apos;Prescrito&apos;. Fora a filha que atendera o telefonema do advogado. &apos;Pai! Pai! Telefonou o doutor Sobral. O seu processo...</summary>
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<name>Maria Adelaide</name>

<email>maria-adelaide63@sapo.pt</email>
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<![CDATA[<p>'Já vale a pena. Tanto tempo para isto!' Desabafara o senhor António Relvas quando se dera conta do significado da palavra 'Prescrito'.<br />
Fora a filha que atendera o telefonema do advogado.<br />
'Pai! Pai! Telefonou o doutor Sobral. O seu processo está prescrito.Acabou, pai!'<br />
Logo, logo, não percebeu o que aquilo queria dizer. Pediu à filha que lhe explicasse; até viu no Dicionário que está na estante da sala e onde estão todas as palavras da Língua Portuguesa: Prescrito, adj. que prescreveu; ordenado formalmente.( Do lat.praescriptu - 'prescrição').Viu prescrever, com os braços esticados; a vista já não ajudava: Prescrever, v. tr.regular, de antemão; ordenar; estabelecer; determinar; receitar; aconselhar; intr. cair em desuso; ficar sem efeito por ter decorrido o prazo legal; ficar reprovado o número máximo de vezes previsto por lei. ( Do lat.praescribere, 'escrever na frente').<br />
Era, então, isso! Passara de prazo. Mas não era isso que ele queria. <br />
Ele queria que a verdade viesse ao cimo como o azeite. Não percebia, por isso, aquele contentamento da filha e do advogado.<br />
Ele nem queria recorrer a advogado. Quando o vizinho fizera aquela queixa contra ele na Justiça, uma refinada mentira, mesmo tendo passado tantos anos sem escrever, voltara aos bancos da escola primária; um bocadinho de cuspo na ponta do lápis, a borracha na outra e, com as poucas letras que aprendera até à terceira classe, pusera-se a escrever as razões que lhe assistiam.<br />
O Juiz seria, com certeza, um homem de bem e haveria de ver de que lado estava a verdade; ele era um homem de palavra, honrado e o outro não passava de um trapalhão e de uma alma danada. <br />
Mas os vagares da Justiça não o haviam deixado lavar a honra. E agora ali estava aquela mancha para sempre. Ele bem via os olhares desconfiados que se cruzavam com o seu; 'Não há fumo , sem fogo. Alguma coisa houve'.<br />
Nunca tivera nada de seu, a não ser aquelas mãos que não haviam feito o exame da terceira classe para fazer a primeira ceifa ao lado dos homens; eram muitos lá em casa e a fome por vezes apertava. Tinha de seu as mãos e o bom nome que o pai lhe deixara como herança.<br />
Se o pai fosse vivo! </p>

<p>*****************************************************************************************************************</p>

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<p></p>

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<p></p>

<p></p>

<p></p>

<p>Entrou no escritório, atirou com a pasta para cima do sofá junto ao candeeiro de pé alto. Sentou-se, cruzou as pernas sobre a secretária e acendeu um cigarro.<br />
Prescrito!<br />
O cabrão do advogado ficara-lhe caro como o caraças mas valera a pena. Tantas voltas dera à merda do processo, que  lá conseguira encontrar uma argolada nos autos; prazos que não haviam sido cumpridos e o que é facto é que conseguira safá-lo.<br />
Abuso de poder! Corja de oposição! O que era aquela terra antes dele chegar? Nada! Metera uns trocados ao bolso; pois metera. E , então? Com a miséria que lhe pagavam, bem o fizera; paga insuficiente para quem tinha obra feita. Lá diz o ditado, 'Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte', e parvo era coisa que ele não era.<br />
A oposição há-de 'escagaitar-se' toda para lhe tirar a câmara mas não há-de conseguir; o povo está do lado dele e não esquece que a ele se deve a subida de divisão do clube. Está para nascer o filho da puta que lhe há-de fazer a folha.<br />
Descruzou as pernas e pô-las no chão. Há posturas que um presidente pode ter em privado que não pode mostrar aos seus subordinados. Digitou 01 e chamou a secretária.<br />
- O senhor engenheiro chamou?<br />
- Chamei, sim Zulmira. Traga-me um café.<br />
- Sim, senhor engenheiro...e parabéns.<br />
- Parabéns, porquê, Zulmira?<br />
- Pelo fim do seu processo, senhor engenheiro.<br />
- Ah, sim, sim...obrigado. a verdade é como o azeite, Zulmira, vem sempre ao cimo.<br />
- A verdade, senhor engenheiro? Mas o processo não ficou prescrito?<br />
- Pois foi. Não houve foi tempo para mostrar a verdade. Mas com tempo, ela havia de vir ao cimo, Zulmira, ela havia de vir ao cimo.<br />
- Claro, senhor engenheiro, claro...então, com sua licença, trago-lhe já o seu cafézito. <br />
Belo rabo, sim senhor. Como é que ela cá veio parar? Ah! O tesoureiro do clube.<br />
' O senhor engenheiro havia de arranjar uma vagazita para a minha sobrinha. A moça acabou o 12ºano. Está desempregada. É uma moça como deve de ser, trabalhadora, respeitadora...'<br />
E ele que era uma boa pessoa, nomeara-a sua secretária pessoal. Um homem com o seu dinamismo, já o merecia.<br />
Digitou 01, novamente.<br />
- O senhor engenheiro deseja mais alguma coisa?<br />
- Desejo, sim, Zulmira. Telefone à minha mulher e diga-lhe que hoje não vou almoçar a casa.</p>]]>

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<title>Futebol e Senhorialismo</title>
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<![CDATA[<p>Há algum resquício de senhorialismo feudal na confiança incondicional dos mais fervorosos apoiantes do 'Desporto-rei' nos seus dirigentes desportivos. À relação de fidelidade que mantêm com os Senhores do futebol, o Senhor Pinto da Costa, o Senhor Major Valentim Loureiro e outros Senhores não devem ser alheios séculos de senhorialismo, extinto na legislação liberal do séc.XIX mas sobrevivente na mentalidade dos mais desfavorecidos socialmente.</p>]]>

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<title>Democracia Representativa</title>
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<![CDATA[<p>Ocorreu-me um desabafo sobre a democracia, o pior dos regimes políticos, como dizia Churchill, com excepção de todos os outros.<br />
Tem sido prática comum, na nossa democracia representativa, ao darmos o voto a um partido político, este convertê-lo num consentimento para que sejam colocados/substituídos nas diversas estruturas hierárquicas da administração, da saúde, da educação, aqueles que o partido vencedor muito bem entende; daí que, como cidadã, detentora da soberania nacional, me tenha sido dado constatar que muitas estruturas intermédias (  fundamentais para o bom funcionamento de um estado soberano) estão ocupadas por indivíduos que nada devem ao concurso do mérito mas à nomeação partidária, dando provas, quantas vezes, da maior incompetência e arrogância.</p>]]>

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<title>Part-time</title>
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<![CDATA[<p>O nosso primeiro ministro propôs às famílias portuguesas um pacote de 100 medidas num embrulho de modernidade: é sabido que no mundo dos países ricos corredores da produtividade, cada vez maior número de cidadãos sacrifica a sua vida profissional em prol de uma vida mais calma, mais próxima dos filhos, menos determinada pelo relógio; ora, também Portugal que se quer afirmar como uma velha nação moderna terá, por via do actual governo, trabalho a tempo parcial na administração pública e reforma parcial para quem se quiser aposentar mais cedo.<br />
Mas quantas famílas poprtuguesas têm rendimentos suficientes que lhes permitam fazer tais opções?</p>]]>

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<title>Derrotas e Vitórias em Democracia</title>
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<![CDATA[<p>A derrota de José Maria Aznar em Espanha mostrou que já não é o estado da economia que determina as vitórias ou as derrotas eleitorais. Já não será o déficit orçamental ou a situação confortável da economia que farão perder ou ganhar os actos eleitorais. Mas será, seguramente, a mentira, a arrogância e o distanciamento dos políticos em relação aos seus concidadãos que os farão perder.</p>]]>

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<title>O Meio e os Fins</title>
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<![CDATA[<p>E pronto. Com um  missil, Ariel Sharon reduziu a partículas o velho assassino do Hamas e, ao mesmo tempo, conseguirá não um, não dois, não três, mas quatro objectivos: radicaliza a situação no Médio Oriente, espicaçando os grupos terroristas que, ao retaliarem, 'legitimarão' qualquer atitude de força do líder Israelita e anularão as posições dos moderados ( ainda  os há? ) de ambos os lados do conflito Israelo-Palestiniano, sem contar que a opinião pública Israelita ( à semelhança do que parece acontecer com os presidentes americanos escudados na guerra para ofuscar fraquezas internas ) esquecerá o caso de corrupção em que Ariel Sharon e o filho estão atolados.</p>]]>

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<title>Nostalgia ao Almoço</title>
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<modified>2005-09-25T17:11:17Z</modified>
<issued>2004-03-19T14:24:09Z</issued>
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<summary type="text/plain">Tivera a ideia do almoço quando, ao dar volta às gavetas da estante da sala, encontrara o velho álbum com fotografias de solteira. Na terceira página, ela, a Teresa, o Diogo, o Francisco e o Alberto numa fotografia a preto...</summary>
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<![CDATA[<p>Tivera a ideia do almoço quando, ao dar volta às gavetas da estante da sala, encontrara o velho álbum com fotografias de solteira.<br />
Na terceira página, ela, a Teresa, o Diogo, o Francisco e o Alberto numa fotografia a preto e branco no alto da escadaria da igreja.<br />
Quem lhes tirara a fotografia? Já nem se lembrava...o pai do Francisco. Isso mesmo, o pai do Francisco, de entre os poucos que possuíam máquina fotográfica na terra. Fora na Páscoa. Ela de vestido com machos, sapatos de verniz preto e meias brancas até ao joelho.<br />
' E agora trata de te sujares na brincadeira com os moços.', dissera-lhe a mãe que nunca aceitara que a filha brincasse na rua com os rapazes. 'O lugar das meninas é em casa.', repetia ingloriamente.<br />
A Teresa com o chapéu de palha de abas curtas e fita azul que a acompanhava toda a semana, dias santos e feriados. 'É por causa do sol.' Sangrava constantemente do nariz.<br />
O Diogo de mãos nos bolsos, exactamente na mesma posição em que o encontrara junto ao altar onde esperava por ela no dia do casamento.<br />
O Francisco, vaidoso, sorriso ensaiado, posando para a fotografia.<br />
O Alberto, a boca entreaberta, o olhar franco quase de espanto, como nas primeiras aulas de iniciação de Inglês, ouvindo o 'No' da professora ao 'My name's a boy', resposta convicta à pergunta 'What's your name?'. As línguas não eram o seu forte.<br />
Junto da Teresa, com quem mantivera o contacto ao longo dos anos, conseguiu os números de telefone do Francisco e do Alberto. Com exclamações de surpresa e de alegria, todos aceitaram o convite.<br />
Na véspera, Célia foi ao cabeleireiro e convenceu o Diogo a levar fato e gravata. Na mala guardou algumas fotografias das filhas, três fotocópias da fotografia que despertara a saudade dos tempos idos e um discurso que tencionava ler antes do almoço, repleto de referências nostálgicas: as batas brancas da instrução primária, as rifas da caixa de chocolates no Natal e do pacote de amêndoas pela Páscoa, os mealheiros quebrados na véspera da feira, os  vidros partidos nos bancos de trás da camioneta  que os fazia chegar enregelados ao liceu nas manhãs de Inverno, o enjoo dos primeiros cigarros fumados atrás do ginásio...</p>

<p>Teresa puxou de um cigarro após o café. Engordara. Os dentes e as pontas dos dedos estavam amarelos do tabaco. Tossiu.<br />
- Não querias deixar de fumar? - perguntou-lhe a Célia. - Tens obrigação de saber, trabalhando ao balcão de um centro de saúde, que o tabaco ... <i>Hospedeira de bordo, Célia. Quero viajar, conhecer outra gente  </i><br />
- Queria, mas desisti. Chegava ao fim do dia irritada e insuportável para toda a gente.<br />
- Mas estás bem?<br />
- Mais ou menos...<br />
- Então?<br />
- Estou com diabetes. Sabes como é que é. Sempre à pressa, pouco tempo para almoçar...  <br />
- Calculo. Mas tens que fazer um esforço para te alimentares melhor.<br />
- Um esforço...tu não fazes ideia do inferno que é a vida em Lisboa, Célia. Estás aqui no nosso Alentejo profundo, tens tempo para tudo. Sais das tuas aulas...tens alunos de que ano?<br />
- Quarto ano.<br />
- Não precisas apanhar tranportes públicos, tens tempo para ler, para conversar com as tuas filhas, para estar contigo mesma...<br />
- Nem tanto...e ouve lá, o teu marido? Continua a fazer hemodiálise?<br />
- Que remédio, coitado. Continua em lista de espera, mas não é fácil conseguir um dador compatível.<br />
- Costumas encontrar o Alberto ou o Francisco?<br />
- É raro, mas às vezes vejo-os. Lisboa náo é a nossa aldeia, Célia.<br />
- Sei isso muito bem, minha alfacinha. Mas achas que eles estão bem?<br />
- O Alberto, sim. O Francisco nem tanto.<br />
- O que é que queres dizer com isso?<br />
- Sabes como é o Alberto. Pacato. Tem uma vida estável. É camionista na E.V.A. Está nos quadros da empresa. É dono do apartamento onde vive.<br />
- O que é que a mulher faz?<br />
- É educadora infantil...mas ironia do destino; não têm filhos como sabes.<br />
- Bem sei.<br />
- Mas adoram-se. São felizes.<br />
- E por que é que dizes, 'O Francisco nem tanto'?<br />
- O Francisco era ambicioso, Célia, e há vinte e cinco anos que é caixa no banco. Ainda me lembro que quando lhe perguntávamos o que é que ele gostaria de seguir respondia sempre, 'qualquer coisa, desde que dê muito dinheiro'...o filho mais velho não lhe fala.<br />
- Porquê?<br />
- Não sei. Mas deve ter a ver com o divórcio dos pais.<br />
- O mais novo está com a mãe?<br />
- Está e constou-me que está com problemas de droga. O Francisco vê o filho aos fins de semana, não sei se todos , se de quinze em quinze dias.<br />
- Mas a Lídia, a segunda mulher, parece ser muito boa pessoa.<br />
- E é.<br />
Haviam-na, praticamente, ignorado durante todo o almoço. Sorriso breve, olhar baixo e tímido.<br />
- O que é que vocês as duas estão a cochichar uma com a outra? Aposto que estão a cortar na casaca cá do Chico. - disse o Francisco, aproximando-se de copo na mão.<br />
- Teresa!- chamou o marido- anda cá ver uma fotografia que o Diogo me está a mostrar.<br />
- Com licença - pediu  a Teresa - eu já volto.<br />
- E então, Francisco, como é que tu estás? - recomeçou a Célia.<br />
- Porreiro, pá. A Lídia é espectacular. Atura-me. Os putos são fixes...nunca mais viste a Lurdes?<br />
- Não. Nunca mais a vi...<br />
- É um crime, Célia.<br />
- o que é que é um crime, Francisco?<br />
- Um pecado imperdoável.<br />
- Do que é que estás a falar?<br />
- Recusar o amor de alguém, Célia. É um crime.<br />
Ninguém, no grupo, conseguira compreender como é que a Lurdes, uma rapariga que não era particularmente bonita nem inteligente, despertara aquela paixão no Francisco. Mais intrigante que a paixão do Francisco fora a recusa da Lurdes em aceitar-lhe o namoro após um longo arrastar de asa. O Francisco era atraente, esperto, bem-humorado...<br />
- E agora, meus amigos, um copo às nossas recordações- propôs o Francisco, erguendo o dele.<br />
- Não bebas mais Francisco. Ainda tens que conduzir.- recomendou-lhe a Lídia.<br />
- 'Tá' calada! Conduzes tu...ah, é verdade, nem carta tens. Aliás, nem devias estar aqui. Não pertencias ao grupo nem partilhas as nossas memórias.<br />
- Calma, Francisco - interveio o Alberto, conciliador - a tua mulher tem razão; já bebeste bastante. Olha que não queremos encerrar este almoço com o teu funeral.<br />
Célia aproximou-se de Lídia e afagou-lhe o braço:<br />
- Deixe lá, Lídia. Os homens quando estão com um copo a mais dizem estes disparates...mas quem sou eu para estar com esta conversa; conhece-o melhor que eu com certeza.<br />
- Não sei. Nós achamos sempre que sim, não é? Que os conhecemos muito bem. E sobretudo que os conseguimos mudar. Penso muitas vezes que ele não me ama verdeiramente, que precisa apenas de mim e não suportaria que eu o deixasse. O Francisco parece ter perdido qualquer coisa de muito importante que nem mesmo ele sabe o que é.<br />
A vida faz-me lembrar um comboio, sabe? Um comboio em andamento que nunca espera por ninguém. Há aqueles que têm a sorte de apanhar a carruagem certa e aqueles que saltam de umas para outras, tropeçam, ferem-se, erguem-se e nunca alcançam a carruagem dos seus sonhos. E o pior de tudo é que não se pode voltar atrás e refazer o caminho.</p>

<p>E talvez por isso aquele almoço deixou um travo amargo. Alguém sugeriu, nas dspedidas, que podiam voltar a reunir-se noutro almoço. Alguém respondeu que era uma boa ideia. Todos sorriram. Mas ninguém se ofereceu para o organizar.</p>]]>

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